Curitiba

Albari RosaEm 1950, Bocaiúva do Sul tinha 20,4 mil habitantes. Hoje, a população do município está reduzida a 8,5 mil pessoasO quadro de pobreza denunciado na semana passada pelo prefeito de Bocaiúva do Sul se repete em todos os outros municípios que formam o Vale da Ribeira, ao Norte de Curitiba. Depois da construção da BR-116, que desviou a rota de caminhões e veículos que cruzavam o Sul a caminho de São Paulo, as pequenas cidades perderam sua importância econômica. O asfalto não foi refeito e os municípios acabaram esquecidos. Hoje, todas as cidades ao longo da Estrada da Ribeira têm o mesmo cenário de um povoado pobre e abandonado.
Grande parte da população, principalmente os mais jovens, foi embora à procura de emprego e escola. Os poucos que ficaram tentam se manter às custas do trabalho em pequenas propriedades agrícolas e antigas casas comerciais. Em comum, todos têm a lembrança de uma época em que a cidade tinha fábricas, hotéis, bancos, movimento e, sobretudo, dinheiro. Municípios como Doutor Ulysses, próximo a Cerro Azul, tem hoje 5 mil habitantes e nenhum hospital.
Sem recursos e com estruturas inchadas, as prefeituras destas cidades lutam para atrair empresas capazes de dar emprego a uma população ociosa e miserável. Enquanto os investimentos não vêm, os moradores continuam no seu movimento migratório. ‘‘Nenhum dos meus filhos quis ficar aqui em Bocaiúva vivendo como agricultor’’, diz Sebastião Agostinho, de 84 anos. Seus quatro filhos moram em Curitiba, trabalham em fábricas ou no comércio e não têm planos de voltar à cidade. ‘‘Eles dizem que só voltam quando tiver emprego por aqui’’, conta. Em 1950, Bocaiúva do Sul tinha 20,4 mil habitantes. Hoje, restam apenas 8,5 mil.
Albari RosaSebastião Agostinho, de 84 anos: ‘‘Nenhum dos meus filhos quis ficar aqui em Bocaiúva vivendo como agricultor’’
Entre os adolescentes, a vontade de fuga é a mesma. ‘‘Não há motivos para ficar em Bocaiúva, principalmente para quem quer um futuro melhor’’, diz Maria Manoele do Santos, de 14 anos. A maior parte dos que têm emprego formal em Bocaiúva do Sul trabalha para a prefeitura. São ao todo 315 funcionários municipais, que consomem por mês aproximadamente 70% da arrecadação. O restante, segundo o prefeito Élcio Berti, é utilizado para pagamento de dívidas do município e dos custos de manutenção.
‘‘Mantemos alguns empregos públicos supérfluos para evitar que mais famílias fiquem na miséria’’, diz Djalma Pedroso de Morais, secretário da Administração de Adrianópolis, cidade paranaense na divisa com São Paulo, onde a situação de pobreza também se repete. Atualmente, a prefeitura do município contabiliza a existência de mil famílias de indigentes, segundo dados do Programa Comunidade Solidária. ‘‘Se nenhuma indústria vier para cá, vamos acabar virando uma cidade fantasma’’, diz Moares.

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