Boy joga truco em fila e acaba despedido
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sexta-feira, 03 de outubro de 1997
Londrina 
Milton DóriaPerformanceMembros do Sindicato também protestaram contra arrocho salarialIntegrantes do Sindicato dos Bancários de Londrina realizaram um protesto diferente e curioso ontem de manhã, em frente à agência centro do Bradesco: eles se reuniram para jogar truco. Além de chamar a atenção para as extensas filas no banco, a manifestação teve o objetivo de denunciar a demissão de um office-boy, que ocorreu, segundo a entidade, justamente por estar jogando truco enquanto esperava ser atendido.
O sindicato vem denunciando a demora no atendimento, as extensas filas, principalmente nos dias de pico, e a demissão de funcionários desde a introdução do novo horário bancário, ocorrido em 5 de maio - o atendimento ao público foi reduzido em uma hora, passando das 11 às 16 horas.
O presidente da entidade, José Francisco da Silva, afirma que, em função dessa demora, no dia 8 de setembro, um grupo de office-boys resolveu jogar truco na agência centro do Bradesco, localizado no Calçadão. O gerente viu esse marketing negativo para o banco, deve ter falado para a empresa, que mandou o boy embora, afirma.
A mãe do office-boy, a professora Maria Neusa Stefani Verselhese, confirma a versão. Ela conta que seu filho, Luis Fernando, 15 anos, trabalhava há sete meses numa empresa de engenharia e, naquele dia, foi ao Bradesco, viu seus colegas disputando partidas de truco e resolveu se juntar a eles. Mas ele fez isso sem maldade, não queria mostrar nada, apenas passar o tempo.
Neusa Verselhese afirma que na mesma semana seu filho foi mandado embora. Ao comparecer na empresa para assinar a rescisão de contrato, a professora diz ter sido informada que Luis Fernando foi mandado embora a pedido do gerente do banco. O funcionário que a atendeu teria confirmado: seu filho foi despedido porque o gerente do banco é útil para a empresa.
A professora diz que ainda tentou argumentar, questionando se o caso não seria apenas de repreender o seu filho, mas o funcionário teria dito que o gerente do banco havia exigido isso. Na sua opinião, o gerente agiu com safadeza e muita injustiça. Ele deveria estar se preocupando em melhorar a qualidade do banco e o nível de atendimento, e não em pedir para mandarem um boy embora.
Viúva, Neusa Verselhese observa que trabalha e consegue sustentar seus filhos. Mas explica que sempre fez questão de ensiná-los a trabalhar desde cedo. Agora o Luis Fernando está arrasado e sem vontade de sair para procurar outro emprego, alega.
O presidente do Sindicato dos Bancários diz estar investigando se outros office-boys que participaram da roda de truco foram despedidos. A Folha procurou a empresa e o gerente do Bradesco, Rubens Spagnolo, que preferiram não comentar o caso.
Além de rodas de truco, o protesto dos bancários contou com a participação de de duas figuras: uma estava envolta em panelas vazias e simbolizando o bancário arrochado. O outro personagem era o banqueiro. José Francisco da Silva ressalta que, com a redução no horário, o atendimento ao público não melhorou, como alegavam os bancos. E depois que começou o novo horário, o ritmo de demissões de bancários aumentou, completa. Segundo ele, neste ano, o Bradesco de Londrina foi responsável por 29 demissões, o que representa mais de 10% do quadro total de funcionários.
O protesto teve início pouco antes da abertura do banco e durou cerca de duas horas. José Francisco da Silva afirma que a manifestação chamou bastante a atenção dos clientes do Bradesco (o maior banco privado do País) e das pessoas que passavam pelo local. Esperamos que tenha chamado também a atenção do banco.
(Lucília Okamura)


