Ao serem questionados se as aulas de boxe estão mudando suas vidas, a resposta é unanime: "Com certeza", assegura o grupo de mais de 40 jovens e crianças, moradores do Jardim Ana Eliza 3 e bairros vizinhos, em Cambé (Região Metropolitana de Londrina). Para eles, participar de um projeto social e aprender a disciplina das artes marciais têm garantido resultados positivos dentro e fora dos ringues.
Liderados por Mestre Kim, eles estão sempre lá, na quadra de esportes do bairro, vestindo luvas e protetores para mais uma aula de boxe, muay thai e kickboxing. A céu aberto, apesar da falta de equipamentos, eles batem forte e, de longe, se percebe a seriedade e a dedicação da galera. Independente de idade e sexo, todos colocam para fora a energia da juventude, nocauteando a vulnerabilidade social a que estão expostos.
"Se não fosse o projeto, poderia estar mexendo com drogas. Assim como vários amigos meus", relatou Cleiton Ferreira, de 15 anos, atual campeão paranaense de boxe amador. "Faz três anos que pratico. A luta mudou minha visão de vida. Hoje acredito num futuro bem melhor", explicou.
Os relatos são muito parecidos. Maria Eduarda, de 13 anos, comemora a oportunidade de aprender os ensinamentos das artes marciais, que influenciam e muito sua vida. "Estou uma pessoa mais calma. Não tenho mais aquela vontade de ficar na rua arrumando confusão, aprendendo o que não presta", revelou ela. "Isso desde quando comecei a participar do projeto, há sete meses", comentou, ao lado da colega Isabela Mendez, de 12 anos, testemunha da sua transformação.

Orgulho
Considerado um dos precursores das artes marciais na região Norte do Estado, José Roberto Nicolau, ou Mestre Kim, como é conhecido, admite ter perdido as contas de quantos lutadores formou durante os quase 40 anos de esporte. No entanto, cita um a um quando o assunto é transformação social. "Várias vidas foram mudadas. Além do esporte, em primeiro lugar vem a parte social. Coloco em prática todo meu conhecimento para evitar que tenham problemas com drogas, álcool", ressaltou o mestre. "Tinha gente aqui que estava envolvida, mas conseguimos trabalhar a pessoa e tirá-la desse meio. Falo sempre, as drogas só levam a dois caminhos: cemitério e cadeia."
Aluno do curso superior de Serviço Social, Kim coloca a teoria que aprende na sala de aula em prática nas ruas do Jardim Ana Eliza 3. Além disso, usa os maus exemplos da região para alertar os alunos. "Converso muito. Mostro a eles também o mal que o crime traz pra pessoa, para que não cometam o mesmo erro", salienta o professor.
Por outro lado, destaca os modelos positivos que já formou em seu projeto. Entre eles, João Ricardo dos Santos, o Neguinho, de 31 anos, que auxilia a difundir ainda mais as artes marciais na região. Há 10 anos participando do projeto, Santos exibe um belo currículo no boxe. "Tenho 19 lutas profissionais. Delas, 18 vitórias e uma derrota. Também ganhei duas vezes o Campeonato Paranaense, no ano de 2000 e 2011 ", contou o atleta.

O projeto social é desenvolvido diariamente na quadra do bairro, a partir das 17 horas. Além de professor, Mestre Kim trabalha como segurança em um hospital de Londrina, deixando as horas vagas para repassar sua experiência na luta.
Ele também organiza três eventos beneficentes de artes marciais por ano para ajudar entidades carentes. Kim ressalta que o projeto conta com apoio da prefeitura de Cambé, da Central Única das Favelas do Paraná (Cufa) e do Hospital de Olhos de Londrina (Hoftalon).

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