Botânicos recriam em viveiro florestas nativas do Paraná
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quarta-feira, 19 de abril de 2006
Luciano Augusto<br>Reportagem Local 
Numa pequena chácara encravada no Limoeiro, localidade rural da Zona Leste de Londrina, dois talentosos botânicos conseguiram recriar o que a mão humana não se preocupou em poupar. Desde agosto do ano passado, Henrique Garcia Rocha e Elvis Hasmann de Camargo reproduzem no viveiro Flora Londrina as árvores nativas do Paraná e já têm um banco que soma mais de 100 espécies. Algumas, de tão raras, são praticamente desconhecidas pela maioria das pessoas. Os dois arqueólogos da flora redescobriram esse tesouro justamente para colocar à disposição de quem quiser usufruir dele em prol do meio ambiente.
A atividade dos botânicos é comercial mas o viés conservacionista é evidente. Graduados em Ciências Biológicas pela Universidade Estadual de Londrina (UEL), desde então os dois já participavam de pesquisas que visavam a recuperação e conservação das espécies nativas do Paraná. Recentemente, também fizeram um curso na Escola Superior de Agronomia Luiz de Queiróz (Esalq-USP), em Piracicaba, de adequação ambiental de propriedades rurais e de recuperação de áreas degradadas. No curso, eles aprimoraram os conhecimentos para diagnosticarem as condições de áreas de preservação permanente (APP) e, a partir disso, poderem mapear as condições da propriedade e definir os melhores planos de recuperação da cobertura florestal destruída.
Para reproduzir o que a natureza constrói a duras penas, eles realizam um trabalho de garimpagem que beira o artesanal. Conhecedores da época correta de maturação das sementes, eles saem a campo atrás do material. Rocha lembra que essa fase quase sempre é bem difícil, porque depende muito do comportamento climático que atingiu a região visitada antes da época de coleta e porque grande parte do que havia em abundância na natureza já foi perdido pela ocupação despreocupada do homem.
Há situações, conta Rocha, em que é preciso retornar ao mesmo local diversas vezes para coletar as sementes de uma única espécie. Noutras, é necessário escalar árvores de 20, 30 metros. Eles chegam a usar até técnicas de rapel para conseguir a semente de determinadas plantas.
Vencida essa etapa, eles retornam para o viveiro. Aí começa a segunda fase, também cheia de segredos. Temos o problema de dormência das sementes, exemplifica Rocha. Explicando: os botânicos precisam desvendar como ligar a semente para que ela germine. Com o sucesso da germinação, as mudas passam das caixas de areia para os saquinhos com terra e depois seguem para o processo de rustificação, onde a irrigação e a adubação são diminuídas. Isso condiciona as plantas ao estresse que elas vão sofrer no campo, quando forem plantadas, aponta os botânicos.
E o fato de contarem já com mais de 100 espécies no catálogo não serve simplesmente para atraírem mais compradores. No trabalho de conservação de APPs e reservas legais é preciso contar com alta diversidade para garantir a variedade de espécies e obter sucesso no reflorestamento, esclarece Rocha. Para comprovar o que falam, os cientistas plantaram um arboreto semelhante a um horto florestal na propriedade que já tem 125 espécies para demonstrar aos visitantes que uma planta não sobrevive
isoladamente.
O local conta com diversas espécies de ipês, perobas, jequitibás, canelas, jacarandás, entre muitas outras. Eles recriaram até a peroba branca, que está praticamente extinta na região por causa da intensa exploração comercial que sofreu. O viveiro dispõe também de uma espécie recém-descoberta exclusiva da Mata dos Godoy (Zona Sul de Londrina). A árvore foi, inclusive, batizada em homenagem ao parque: exostyles godoyensis.
Tanto trabalho, no entanto, acaba por encarecer o custo da espécie nativa em relação, por exemplo, ao eucalyptus. O valor da primeira chega a ser três vezes maior. Mas Rocha comenta que o ganho ambiental que se tem reflorestando áreas degradadas com espécies nativas é incomparável para a flora, fauna, rios e, claro, para o homem. E o futuro agradece.


