Antes mesmo das 10 horas, Neli Cardoso, 42 anos, começa a preparar o almoço para o marido e os três filhos. Para quem vê a dedicada mulher é quase impossível imaginar que as mesmas mãos que preparam o alimento são capazes de manusear pesadas ferramentas numa borracharia. Aliás, até mesmo o almoço é feito no local de trabalho, onde toda a família se reúne. O negócio, localizado na Avenida Francisco Gabriel Arruda, 35, Jardim dos Estados (Zona Norte de Londrina), leva as siglas do sobrenome dela e do marido - CR Borracharia - e tem clientela garantida que confia no trabalho da mulher.
Neli suja as mãos de graxa há um ano e meio, desde quando o marido, o motorista de ônibus Maurício Rodrigues da Silva, 48 anos, resolveu abrir o próprio negócio. Ele conta que na época Neli não aguentava mais só ficar em casa e buscava algum meio de ajudar o marido com a renda familiar. ''Ela tinha pensado numa padaria, mas a gente não ia ter condições de pagar funcionários. Como eu já tinha pensado na borracharia, ela abraçou a causa e veio junto comigo trabalhar.''
O funcionário do casal, Valdecir Rodrigues, 35 anos, diz que os clientes admiram o trabalho da mulher. ''Tem alguns que olham e mandam me chamar achando que ela não dá conta. Quando ela termina o serviço, todo mundo fica admirado. Ela tem muita determinação e vontade'', comenta.
Sem os pôsteres de mulheres nas parede, a borracharia de Neli, que funciona todos os dias, inclusive aos domingos, tem características marcantes, típicas de uma mãe de família dedicada: tudo é muito organizado e limpo. Os pneus são guardados e cobertos de forma que o mosquito da dengue não tem vez. O único cômodo do empreendimento tem uma geladeira, um fogão e utensílios domésticos que facilitam a vida de Neli na hora de servir o almoço aos filhos. ''Nós moramos no Jardim Imagawa, eu venho a pé mesmo. Meus filhos têm 11, 12 e 13 anos e todos passam aqui para almoçar antes de ir para escola'', conta.
Feliz com o trabalho que executa, Neli, que apresenta mãos muito bem cuidadas e com unhas esmaltadas, apesar de lidar com graxa, lembra das dificuldades que teve antes de ''pegar o jeito'' com o negócio. ''Uma vez vieram aqui duas moças numa Honda Bizz com problema nos freios. Eu não conseguia de jeito nenhum arrumar o defeito. Estava quase pagando um mototáxi para elas irem embora quando meu marido chegou e deu um jeito. Hoje eu sou craque em freios de Bizz, faço tudo certinho'', comenta sorrindo.
Quando o problema envolve pneus de caminhões, nem sempre Neli dá conta, mas ela garante que é só porque exige muita força. ''Se não fosse por isso eu faria também. Arrumo pneus de moto, carro, carriola, o que aparecer'', afirma.
Mais que uma trabalhadora braçal, Neli, que é evangélica, ainda arruma tempo para a caridade. ''Como aqui é uma avenida, sempre aparece alguém precisando de ajuda. Dinheiro eu não dou, mas comida a gente sempre dá um jeito. Sabemos que Deus é o caminho, então tentamos ajudar com as palavras aqueles que querem ouvir''.

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