Casa, comida, roupa lavada: desejo de qualquer homem e, claro, de toda mulher, que também sonha com filhos que tenham a cara do pai. Nada mais esperado na rotina dos namorados do que o casamento, que como tudo na vida, tem o tempo certo para acontecer. Porém no Jardim Marabá, Zona Leste de Londrina, a realidade tem fugido da regra imposta pela sociedade moderna: ser mãe só após estudar, trabalhar e casar. Mais da metade das gestantes que vivem na área de abrangência da Unidade Básica de Saúde (UBS) têm menos de 20 anos de idade. E o dado mais preocupante: muitas iniciaram a vida sexual com apenas dez anos.
Segundo a enfermeira Irene Jorge Machado, coordenadora do posto de saúde, a maioria das gestações não foi planejada e apenas 30% das 80 jovens vivem com o pai do filho que está para nascer. A maior parte das grávidas abandonou os estudos ainda no primeiro grau e algumas têm outros filhos, quase sempre de pais diferentes. E sem perspectivas, muitas das mães adolescentes deixam a criação dos filhos por conta dos avós.
Em parceria com a Igreja Católica, a unidade de saúde organiza reuniões mensais com as gestantes para conscientizá-las sobre a importância do pré-natal. Juntas, as futuras mães também aprendem a preparar o enxoval do bebê, a partir de doações. Mas as meninas não procuram o posto, são os agentes comunitários que buscam as grávidas em casa.
Para o próximo ano, a coordenadora da unidade de saúde pretende levar conhecimento para as escolas e, principalmente, para os pais. Conforme Irene, a primeira tentativa de educar os jovens sobre sexualidade nas escolas dos bairros atendidos pela UBS não deu certo: ''Os próprios pais acharam que a Saúde estava incentivando a prática do sexo e não informando''.
''São comuns casos de doenças sexualmente transmissíveis entre os casais, tais como HPV, tricomonas, gardinerela e gonorréia'', completou Irene. Para ela, ainda falta conscientização aos jovens: ''Eles sabem que na UBS tem preservativo e anticoncepcional gratuito mas têm vergonha de ir buscar, porque é preciso preencher um cadastro para receber''.
Segundo a coordenadora, nas palestras mensais são tratados temas como alimentação e cuidados com a saúde da gestante, incluindo métodos contraceptivos e projetos de vida para os pais e o bebê. Após meia hora de discussão, é oferecido um lanche às futuras mães, feito a partir de doações dos funcionários do posto. ''Se não tem comida elas não vêm'', disse Irene.
Ela citou a má alimentação como um dos principais problemas enfrentados pelas jovens gestantes durante a gravidez. ''A pouca idade já traz perigo para a gestação e combinada com a desnutrição pode gerar uma criança de risco'', alertou a coordenadora, elencando entre outros fatores a pré-eclâmpsia, a prematuridade, o aumento da hipertensão e diabetes e mudanças no corpo.
Segundo ela, as orientações acontecem de acordo com a realidade de cada família: ingerir frutas da época, sopas de legumes e comer carne pelo menos uma vez por semana são algumas das dicas às gestantes.
''É a velha máxima do 'isso nunca vai acontecer comigo' que leva as meninas a deixar de viver a adolescência. Elas iniciam a vida sexual com nove, dez anos, quando deveriam estar brincando de boneca. Mas tempos depois, não passam de bonecas criando bonecas'', avaliou Irene Machado.

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