Bombas de cal aterrorizam Umuarama
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 14 de fevereiro de 1997
Leonardo Revesso Especial para a Folha 
A polícia de Umuarama está trabalhando para coibir a fabricação de bombas de cal, uma mistura simples e barata que pode causar sérios problemas de pele e até levar à cegueira. Crianças e adolescentes aproveitam restos de cal das construções para fazer a combinação com água, que estoura rapidamente, provocando um estampido semelhante ao de uma bomba de pólvora.
Só no final do ano, pelo menos 15 pessoas deram entrada em hospitais e clínicas especializadas da cidade com ferimentos causados por bombas desse tipo. A mistura explode e pode causar danos a uma distância de até 50 metros devido à reação da água com os componentes químicos que formam a cal, entre eles óxido de ferro, alumínio, manganês, cálcio e magnésio.
Os acidentes mais graves acontecem quando o produto é agitado, o que provoca um aquecimento acelerado da mistura, causando uma explosão imediata. A reação pode se prolongar por até 30 minutos se a mistura não for pressionada depois de pronta.
Os primeiros frascos de bombas de cal foram encontrados pela polícia há três anos. Não divulgamos as ocorrências para evitar que outras pessoas tomassem a iniciativa de preparar o material, até por curiosidade, disse um sargento da PM, que pediu para não ser identificado. Ele conta que viu o próprio filho preparando a mistura. Segundo o tenete Enio Soares dos Santos, o plantão da PM têm recebido queixas de bombas nas ruas e em terrenos baldios.
Há também registros de pessoas que jogam a bomba nos quintais de vizinhos e em locais desconhecidos. É o aconteceu há duas semanas na casa da aposentada Loures Adauto Schaman, 68 anos. Estava sozinha, dormindo, quando ouvi um estouro muito forte. Fiquei com medo e comecei a gritar, contou.
Poucos dias antes, o neto dela tinha sido atingido por uma bomba de cal. Ele viu outros moleques brincando com o frasco e quis fazer igual. No início, pensamos que estava trazendo um litro de leite. O garoto teve apenas leves queimaduras de pele.
Numa das maiores clínicas oftalmológicas de Umuarama, há um paciente de 21 anos em tratamento, sob risco de perder a visão num dos olhos. É o caso mais grave que a médica Lisbete Scanavacca recebeu até agora.
No entanto, pelo menos outros três, de menor gravidade, deram entrada na clínica desde o final do ano. Todos os pacientes são da periferia da cidade, mas há registros de explosões e acidentes também na área central, onde o acesso ao produto é facilitado pela existência de prédios em construção.
De acordo com o tenente Soares, a polícia está sendo rigorosa no combate às bombas de cal. O nosso medo é que o material ganhe novas misturas e faça estragos ainda mais graves, principalmente se for usada por gangues na porta das escolas. O tenente disse também que as pessoas que forem flagradas com a mistura poderão ser presas e responder por lesões corporais caso alguém saia ferido. Se o responsável for menor, os pais é que vão responder.


