Num ponto de ônibus de Curitiba, um senhor aparentando pouco mais de 70 anos, pergunta o itinerário do veículo. Precisava chegar ao Jardim Botânico. Não sabia a rota porque, segundo ele, andou poucas vezes de ônibus pela cidade. ''Agora ando com meu carro no bolso'', disse com um sorriso faltando dentes. Esperou um olhar curioso de alguém para recomeçar: ''É que roubaram meu carro ontem. Está aqui o boletim de ocorrência'', disparou sacando rapidamente da calça surrada, um papel já meio amassado, apontando para quem quisesse ver.

Ninguém quis. Nessa altura, o ônibus chega. Ele mostra a carteira de aposentado e entra pela porta traseira. Procura com os olhos um candidato a interlocutor disposto a continuar a conversa. Escolhe uma mocinha que subiu no mesmo ponto e sentou, tímida, num banco solitário.

''Roubaram meu carro ontem'', repetiu enquanto se sentava, ignorando a ausência de interesse da moça, que já procurava o celular dentro da bolsa para simular uma conversa e não ser importunada. ''Mas não tem importância.'' E o senhor continua. ''Vou te contar um segredo, pergunte qual.'' A moça olha para o lado e solta algo parecido com um gemido de impaciência. Celular sem bateria.

Ele, que entendeu o grunhido como uma pergunta, revela quase sussurrando para que os outros passageiros não ouvissem que estava indo novamente na delegacia para tentar saber notícias do carro roubado. Utilizava o carro, disse, desde que se aposentou, para fazer limpezas de caixa d'água e ajudar na renda mensal. Era casado. Tinha filhos, netos e aparentemente muita, muita paciência (e talvez uma certa felicidade que deixava escapar pelo canto da boca) para continuar vivendo.

''Também já roubaram minha casa 13 vezes'', continuou. ''Nove, me apontaram uma arma. Mas não tem problema.'' Não? A menina, subitamente se interessa. Ela mesmo já tinha se irritado ainda pela manhã com o despertador que não tocara. E agora, um senhor com o triplo da idade (e dos problemas) dela afirmava ''não ter importância''.

Não quis saber os motivos, o ponto da garota chegou e ela desceu carregando mágoas, agora menores, e se despedindo do senhor já com uma pontinha de compaixão nos olhos. Entendeu que ele era uma dessas (raras) pessoas que conseguem, ao longo da vida, encarar as dificuldades como dádivas. Se não de entendimento, de maturidade.

mockup