Bom comportamento tem preço
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 26 de março de 2002
Alexandre Palmar Equipe da Folha 
Foz do Iguaçu Sentado no penúltimo banco do ônibus, Heitor começava a perder a paciência com os três garotos que faziam arruaça no fundão do coletivo. Cansado depois da exaustiva jornada de trabalho, o contador não estava disposto a aturar brincadeiras de meninos de rua, embora sempre soubesse que diversão de criança não tem hora e local para acontecer.
A irritação era justificável na cena sem graça protagonizada pelos moleques, batizados de Huguinho, Zezinho e Luizinho por causa do uso de bermudas e bonés intrínsecos aos famosos personagens de histórias em quadrinhos. Os meninos passeavam pelo corredor com sacos plásticos grudados à boca, fingindo que cheiravam cola de sapateiro.
A graça estava em mostrar a loucura provocada pela droga. Malucos, eles faziam algazarra na lotação, tropeçando em assentos, esboçando ânsia de vômito, pedindo esmolas ao religioso com bíblia debaixo do braço e a um casal de namorados. Até o cobrador foi alvo das graçinhas dos meninos, com idade entre sete e dez anos.
Quando o ônibus chegou ao ponto do shopping, um deles perguntou a Heitor se poderiam descer do coletivo e olhar as vitrines das lojas enquanto o motorista esperava o horário de saída. Mesmo desconfiado com a lucidez momentânea, o rapaz explicou que na volta eles precisariam pagar novamente a tarifa de R$ 1,10. Deixa para a próxima, estamos com pouco dinheiro, afirmou Zezinho.
A ousadia dos moleques continuou no caminho rumo ao Terminal. Desta vez, eles foram mais provocativos nas brincadeiras, chegando a babar ao lado do contador. Heitor perdeu a calma, perguntou quanto custava o fim da algazarra. Quanto o senhor quiser, respondeu Huguinho. Então toma, pega esses dez reais e vão passear, disse o passageiro, com medo de que eles utilizassem o dinheiro para comprar cola.
Quando o ônibus chegou na estação, os três deixaram cair, de propósito, algumas pipocas dos sacos plásticos cor-de-rosa. Em seguida, saíram direto para a lanchonete do Terminal. Foi então que Heitor percebeu que fora enganado. Primeiro, ficou irritado. Mas, depois, sentiu-se aliviado ao perceber que se tratava de um espetáculo.


