Bolsa de Valores também leva ao vício
A tentação de ganhar muito dinheiro de uma hora para outra leva muita gente a se viciar em aplicações - e também perder
Mauro FrassonPrecauçãoDirceu Lamóglia, investidor há dez anos: ‘‘Não dá para colocar todos os ovos na mesma cesta e investir o leite das crianças’’Tensão, stress,
gastrite e úlcera
fazem parte da rotina
dos aplicadores
Guilherme Pupo
Eles dificilmente admitem o vício, mas passam várias horas por dia atentos às alterações nos índices financeiros, com a adrenalina em alta correndo na veia. Os ‘‘viciados’’ em Bolsa de Valores existem, e muitos deles chegam ao extremo de vender todo o patrimônio para bancar o prejuízo nas aplicações.
‘‘É uma paixão, quase como uma cachaça’’, define o superintendente geral da Bolsa de Valores do Paraná, Amaury Angelo Stocchero, que sintetiza a experiência vivida por muitos investidores no contato com os altos e baixos da Bolsa. Ele trabalha há 18 anos no setor e garante que já conheceu várias pessoas que perderam muito dinheiro. ‘‘Em operações de curto prazo, há muitos especuladores e o risco de perder é maior’’, explica.
Em Curitiba, os investidores fazem suas aplicações pelo telefone ou acompanham o andamento do mercado nas corretoras de câmbio e valores. O vício pode ser explicado pela tentação de ganhar muito dinheiro em pouco tempo e sem muito esforço - apenas tomando a decisão certa no momento exato.
‘‘Podemos ganhar milhares de reais em poucos minutos, principalmente no mercado de opções ou derivativos’’, diz o funcionário aposentado da Copel José Bueno Perucci, 51 anos de idade e dez ‘‘de Bolsa’’. Ele conta que já ganhou R$ 120 mil com uma aplicação, mas perdeu tudo nos dias seguintes. ‘‘Chega uma hora em que você passa a ser jogador, e não investidor’’, avalia.
Segundo ele, a ferramenta mais importante no dia-a-dia do investidor é a informação. Na própria corretora, os investidores têm acesso a agências de notícias nacionais e internacionais e tomam decisões de acordo com o conteúdo das informações. ‘‘Enquanto a Bolsa está operando, ficamos aqui de olho. Em casa, presto atenção nas notícias sobre o Congresso e grandes empresas. Temos de estar ligados em todos os acontecimentos’’, observa Perucci.
O professor de Física aposentado Fernando Carvalho Machado, 55 anos, quatro de Bolsa, ainda não saiu do ‘‘vermelho’’, mas continua insistindo nas aplicações. ‘‘Já perdi cerca de R$ 20 mil, mas não perdi a esperança de recuperar o dinheiro’’, disse. Por enquanto, ele se conforma com o prejuízo pensando nas oscilações constantes do mercado: ‘‘Se alguém ganha, alguém tem de perder - o dinheiro é o mesmo’’, diz.
Saúde - O risco de prejuízo é alto, não somente no setor financeiro, mas também para a saúde dos investidores. ‘‘Tensão, stress, gastrite e úlcera já fazem parte da nossa rotina’’, comenta o proprietário de postos de combustíveis Adalberto Klotz, de 63 anos (13 de Bolsa).
O nível de stress sobe e desce na mesma frequência de algumas ações durante o pregão diário. ‘‘A cada cinco minutos, você se questiona se tomou a decisão certa’’, conta o gerente aposentado da Caixa Econômica Federal Ronaldo da Silva Araújo, 51 anos, seis de Bolsa. ‘‘Conheço muita gente que parou de investir porque teve problemas de saúde’’, completa.

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