Bolivianos ilegais: entre a pobreza e a tragédia
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sexta-feira, 02 de setembro de 2005
Fernando Rocha Faro<br> Reportagem Local 
Arapongas O pão com mortadela é degustado como uma iguaria. Um grupo busca aquecer-se ao sol no quintal. As crianças, alheias à situação complicada, brincam como se nada tivesse acontecido. Mas aconteceu. Não bastasse a vida sofrida que levam em La Paz, capital da Bolívia, os imigrantes do País vizinho sofreram um grave acidente de ônibus na madrugada de quinta-feira.
A dor da perda de quatro dos passageiros mistura-se à incerteza sobre o futuro. O certo é que hoje podem contar apenas com a solidariedade, o que não está faltando. Abrigado na Casa Sagrada Família, mantida por fiéis da Renovação Carismática Católica de Arapongas (37 km a oeste de Londrina), o grupo de 20 bolivianos recebe alimentação e auxílio de voluntários.
A chegada do carro da Folha de Londrina foi a senha para que um pequeno grupo de ilegais dispersasse rapidamente. Com medo, ninguém quis comentar o acidente e, principalmente, qual será o destino a partir de agora. Parentes das vítimas ainda internadas também se negaram a conversar.
Uma costureira de 32 anos topou falar, mas pediu que a identidade não fosse divulgada. A mulher, que seguia com destino a São Paulo para visitar uma irmã que mora e trabalha na capital paulista, fez questão de apresentar documentos para provar que fazia apenas uma viagem de turismo. Ela contou que estava acordada no momento do desastre. ''Senti o ônibus balançando e desmaiei. Quando acordei, tinha muita gente, muitas crianças chorando, desesperadas para sair'', relata.
A mulher, que mora em Buenos Aires, na Argentina, perdeu uma amiga no desastre. Disse também que desistiu de visitar a irmã e pretende voltar pra casa logo após conseguir a liberação do corpo da colega.
Segundo ela, é comum que trabalhadores bolivianos tentem a sorte no Brasil. O destino preferido é São Paulo. A maioria deixa La Paz por falta de emprego. ''São vendedores, lavradores. Eles não têm emprego constantemente. Por isso vêm pra cá. Mesmo sem conhecer ninguém.'', afirma. Para ela, como o real é mais valorizado que o peso, a aventura compensa.
Ontem, os bolivianos ainda organizavam-se para tentar identificar quem sobreviveu. Uma criança foi levada para o hospital e mostrada para um homem, que se negava a acreditar que o filho morreu. Ele pensava que a criança do abrigo era o filho. Mais uma dúvida na vida de estrangeiros acostumados a desconhecer quais dificuldades o dia de amanhã vai trazer.


