Famílias de bóias-fria que vivem de forma irregular na Vila Rural José Sossai, em Santa Zélia, distrito de Astorga (40 quilômetros ao norte de Maringá) estão com medo do despejo decretado pela Justiça. Elas moram há algum tempo na vila, lidam com a terra, mas cometeram erros diversos, como o de invasão, abandono parcial ou compra de ‘‘direitos’’. Cada caso revela um drama diferente, porém, com a mesma origem na miséria e ignorância. Muitos denunciam ‘‘favorecimento político’’ na distribuição das casas, além do próprio comércio das unidades proibido por lei.
Inaugurada em outubro de 1997, a Vila Rural de Santa Zélia é a maior do Estado com 100 casas e mais de 500 moradores. A falta de oportunidades na região que emprega pouca mão-de-obra nas lavouras levou muitas famílias a desistir de morar na vila. Parte delas vendeu ‘‘direitos’’ ou simplesmente abandonou as casas cujas prestações não ultrapassam R$ 21,00 mensais. Santa Zélia é uma localidade carente em que os moradores passam boa parte do ano, de maio a outubro, fora do distrito trabalhando nas lavouras de café em São Paulo e Minas Gerais.
‘‘É muito difícil achar serviço e quando encontramos a diária não passa de R$ 7,00’’, exemplifica a bóia-fria Maria Aparecida Rodrigues Marcheski, 34 anos. Há dois meses ela invadiu uma casa na Vila Rural. Com cinco filhos, Maria Aparecida disse que não conseguia arcar com o aluguel de R$ 40,00 que pagava em uma casa no distrito. Ela conta que a casa na vila estava abandonada. ‘‘Arrumamos as instalações e limpamos a terra, mas nos proibiram de plantar porque falaram que iríamos investir à toa já que o despejo pode acontecer a qualquer momento’’, explicou.
A bóia-fria reclama que fez a inscrição para a Vila Rural, mas que na ocasião não conquistou uma casa porque faltou a averbação do divórcio com o ex-marido. ‘‘Por causa disso perdi a casa, só que os moradores anteriores abandonaram tudo’’, criticou Maria Aparecida. Segundo ela, a casa em que mora foi concedida a uma pessoa que vendeu os ‘‘direitos’’ por R$ 2 mil a um outro trabalhador que, por medo do despejo, acabou abandonando a unidade.
Preocupado com a situação das famílias, o vereador José Carlos Ballarotti (PL) diz que pretende lutar no próximo mandato – ele foi reeleito – para impedir os despejos e regularizar a situação da Vila Rural de Santa Zélia. Ele afirma que os despejos só não foram concretizados porque vem mobilizando a Câmara e a comunidade de Astorga. ‘‘Estas pessoas que vivem na vila são honestas e trabalhadoras, estão dispostas a pagar as prestações vencidas e continuar as próximas’’, diz Ballarotti.
Para o vereador, a questão não é justificar os erros cometidos como a compra de direitos, mas evitar ‘‘injustiças’’ diante da situação atual. ‘‘Afinal os moradores anteriores deixaram as prestações atrasadas e abandonaram as casas’’, defendeu Ballarotti.
A dona de casa Maria Barbosa Sampaio, 30, conta que há dois anos o marido comprou os direitos da casa onde mora por R$ 1 mil e regularizou as prestações em atraso. ‘‘Agora paramos de pagar porque falaram que estamos pagando o que não é nosso e que seremos despejados’’, diz. Cultivando algodão e preparando parte da terra para o cultivo de tomate, a dona de casa diz que não tem condições de sair da vila com os cinco filhos.
Para o bóia-fria Antonio Aparecido de Souza, 28, não é fácil conviver com a idéia de despejo. Ele conta que está na vila desde a inauguração, mas que ficou fora um ano, tentando arranjar serviço em cidades da região. ‘‘Por causa disso, fiquei sem os direitos de morador da vila, mas fui obrigado porque não tinha condições de cuidar da família’’, justificou. Casado e com três filhos, o bóia-fria afirma que a terra ainda não dá renda suficiente. ‘‘Mesmo sem ter, gastei R$ 90,00 para plantar algodão, mas se me deixarem continuar aqui vou dar um jeito para arranjar o dinheiro das prestações atrasadas’’, afirmou.
Segundo o secretário municipal de Agricultura de Astorga, José Luiz Nazzaro, a distribuição das unidades segue a lista de inscrições da Cohapar. Nazzaro negou favorecimento político e disse que não tem controle sobre a decisão dos moradores de vender o direito das unidades. ‘‘Quem controla a vila é a Cohapar, nós somente cuidamos da assistência agrícola junto com a Emater’’, explicou.
O gerente regional da Cohapar em Maringá, Luiz Carlos Santos, não retornou os recados da reportagem da Folha para falar sobre a situação da Vila Rural.

mockup