Atrás do prédio número 2.679 da Avenida Duque de Caxias, entre a Rua Cambará e a Avenida Juscelino Kubitscheck, o Clube Desportivo da Bocha de Londrina surpreende pela vitalidade. Imperceptível para a maioria dos passantes, o recinto tem frequência diária e está completando 54 anos, tendo sido inicialmente a Sociedade Esportiva Higienópolis Clube de Bocha, nome que ainda permanece numa parede ao lado do portão de acesso.
''Os vagabundos jogam todo dia; trabalhadores, só aos sábados e domingos'', diz em tom de brincadeira Moacir Ribeiro, o ''Moacir preto'', assíduo há mais de 20 anos e que faz dupla com ''Moacir branco'', o Delalíbera, nascido em 1953, um ano antes de a cancha ser construída.
Efigênia Costa Moro, 79 anos, conta que o marido, Geraldo Moro, construiu a casa de alvenaria na Rua Cambará, em que ela mora, e a cancha ao mesmo tempo. Geraldo morreu há mais de 20 anos; hoje o imóvel pertence à família Viscardi, que tem simpatia pelo esporte e o aluga. Originalmente, em 1954, eram as canchas cobertas, havendo o espaço elevado para a assistência, numa das cabeceiras; mais tarde houve uma ampliação, percebe-se.
O clube faz história com os ''bocheiros'' veteranos: Zanoni, Albino, João Caiuá, Jorge Belfort, Antônio Paoli, Moacir, Álvaro, Sérgio e outros que o vice-presidente, Antônio Aparecido Pascolatti, considera dignos de uma homenagem pelos 54 anos de bocha na Duque de Caxias.
Presidido por Sérgio Ciapina, o Desportivo renova a diretoria a cada dois anos e tem 50 sócios que contribuem mensalmente com R$ 12,00, mas é aberto aos não-sócios, que ajudam a garantir a renda suficiente para a manutenção. A construção de madeira e tijolos abriga duas canchas, um pequeno bar e as mesas para os jogos de baralho. Tem ainda os avisos: ''Proibido sapo no baralho'', ''Sair sem avisar, perde o lugar''.
Conforme o alvará de licença expedido pela prefeitura, trata-se de clube recreativo e social, filiado à Liga de Futebol Amador de Londrina, embora existam a Federação Paranaense de Bocha e a Confederação Brasileira de Bocha e Bolão (CBBB). ''Virou ponto de encontro de amigos, há os que comparecem apenas para conversar'', diz Pascolatti.
Há canchas no Iate, Arel e Canadá, ''mas a que funciona todo dia é esta aqui'', observa Albino Bocato, paulista de Tabatinga que era moleque quando chegou a Londrina em 1936. Desde então, jogou em todas as canchas que existiram na cidade, lembrando que havia duas na Rua Rebouças, duas na Vila Casoni, duas na Rua Araguaia; Vila Higienópolis, Jardim Bandeirantes e Jardim do Sol tinham uma cada. As mais próximas ao centro situavam-se nas ruas Quintino Bocaiúva e Benjamin Constant. E num período mais recente, a da Vila Portuguesa, acrescenta Pascolatti.
Desativadas, ficaram apenas na memória de Albino, que tinha pouco mais de 20 anos quando começou a jogar na Duque de Caxias. ''Ainda era broto, agora com 80 estou vindo de teimoso, gosto de estar no meio da turma. Mas venho só aos sábados, domingos e feriados.'' A ''teimosia'', ele explica, é por causa de intervenções cirúrgicas: três no coração, uma na vesícula e outra na próstata. Contudo, não perdeu a disposição para caminhar, ''às vezes faço seis mil metros'', e jogar bocha. ''Quando comecei era bocha de 1.300 gramas, chegamos a três quilos, hoje é de dois quilos e meio.''
Pronuncia-se bótia (''botcha''), considerando-se a origem castelhana da palavra, que remete a ''bolha'', e a expressão ''boccie'', que os italianos usavam ao introduzir o jogo na América do Sul, primeiramente na Argentina, depois em São Paulo. ''Onde tem uma italianada, tem bocha'', diz Lino Delmonaco, cuja família chegou a Londrina em 1941, indo produzir café nas imediações do Córrego Esperança. ''Tive bocha na minha propriedade. Hoje não jogo mais, o braço está pesado, me distraio olhando'', justifica-se Lino, que mora na Rua Guararapes, Vila Higienópolis, e frequenta o Desportivo em fins de semana.

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