Bocaiúva do Sul expõe a crise dos municípios
PUBLICAÇÃO
domingo, 23 de novembro de 1997
Lorena Aubrift Klenk 
Curitiba
Depois de aparecer na imprensa como o privilegiado destino de investimentos de montadoras de automóveis, a Região Metropolitana de Curitiba ganhou destaque na semana que passou por sua face mais cinzenta. O contraste foi exposto pela boca do prefeito de Bocaiúva do Sul, Élcio Berti, que, preocupado com a perda de receita, armou um golpe de marketing anunciando que proibiria o uso de métodos anticoncepcionais como forma de aumentar a população. Pobre e sem alternativas para gerar empregos, Bocaiúva representa a realidade da maioria dos municípios da RM, onde o desenvolvimento está concentrado num pequeno anel ao redor da capital.
Bocaiúva faz parte de um grande grupo de municípios cuja receita depende em mais de 50% do Fundo de Participação dos Municípios (FPM). Esse bolo reúne 85% dos 399 municípios paranaenses. O Fundo, formado pela soma da arrecadação do Imposto de Renda com a do Imposto sobre Produtos Industrializados, é distribuído pelo governo federal proporcionalmente à população. Com a última recontagem populacional feita pelo IBGE, 185 municípios paranaenses tiveram reduzida sua participação no FPM, entre eles cinco da RM de Curitiba.
Com exceção de Piraquara, os municípios da RM que tiveram reduzida sua cota do FPM não fazem divisa com a capital. É um fenômeno que o IBGE vem detectando há duas décadas: o crescimento acelerado dos municípios no entorno de Curitiba, maior até que o da própria capital.
Nos últimos cinco anos, 53% do crescimento populacional da Região Metropolitana de Curitiba ficou concentrado nos onze municípios ao redor da capital - o chamado primeiro anel. Enquanto Curitiba ganhou 161 mil habitantes nesse período, o primeiro anel ganhou 197 mil.
O segundo anel (que inclui Bocaiúva) ficou com apenas 2,8% do crescimento populacional da região. O terceiro, do qual fazem parte os municípios mais distantes (como Adrianópolis e Doutor Ulysses), teve apenas 0,31%.
A verdadeira Região Metropolitana é formada por Curitiba mais o primeiro anel, que está efetivamente se integrando à capital, diz a pesquisadora do Ipardes Maria de Lourdes Kleinke. Segundo ela, a tendência é que cada vez mais áreas vão sendo agregadas a esse núcleo: A valorização do entorno, com terrenos e serviços cada vez mais caros, vai definindo o movimento da população para outros locais.
Mas a principal questão apontada pelos estudiosos da área é que aumento de população pode significar mais problemas que soluções. O aumento na cota de FPM pode ser engolido pela multiplicação da demanda por serviços sociais. A maioria das cidades no entorno de Curitiba que tiveram aumento populacional funciona como dormitório de gente que trabalha na capital - e aproveita para comprar na cidade onde trabalha, deixando de gerar renda no município onde mora.
A questão central está em gerar oportunidades de trabalho, diz o economista Gilmar Lourenço, coordenador do Grupo de Conjuntura do Ipardes. Hoje, segundo dados da Coordenação da Região Metropolitana (Comec), apenas três municípios da RM têm receita per capita alta: Curitiba, Araucária e Balsa Nova. Os outros estão nas faixas baixa e muito baixa.
A atração de investimentos promete alterar nos próximos anos o quadro em Campo Largo (Chrysler), São José dos Pinhais (Audi e Renault) e Fazenda Rio Grande (Electrolux). Mas e os outros municípios? Gilmar Lourenço vê sérios entraves para que atraiam indústrias: precariedade da infra-estrutura, topografia irregular, existência de áreas de manancial e reservas de mata atlântica.
Hoje, as indústrias não esperam apenas estar perto da matéria-prima e ter mão-de-obra barata, diz Lourenço. Querem pessoal qualificado e infra-estrutura forte, completa. Na área mais carente da RM, o economista aponta uma condição essencial para a viabilidade econômica: o asfaltamento da Estrada da Ribeira. Sem asfalto, não há como gerar empregos e, sem eles, não há decreto que convença uma população a se multiplicar e não migrar.


