Emerson Cervi
De Curitiba
Refúgio de dissidentes e da polêmica, a Sociedade Civil Boca Maldita nasceu da intenção de um grupo de 20 amigos curitibanos em ter um local onde fosse garantida a livre expressão de opiniões divergentes. Esse local, entre o calçadão da rua XV de Novembro e a praça General Osório, foi criado oficialmente no dia 13 de dezembro de 1956.
Hoje são mais de 1.300 cavalheiros diplomados pela confraria. Nada acontece em Curitiba sem passar pela a Boca Maldita. Atualmente, quase 80 municípios do interior do Estado têm uma ‘‘ramificação’’ da Boca curitibana. Não há organização formal ou estatuto na Boca. A confraria se resume à reunião de pessoas em um local público com o objetivo de dialogar.
Mas o diálogo nem sempre foi fácil. Com oito anos, a confraria enfrentou o Ato Institucional número 5 (AI-5), principal instrumento da ditadura contra a liberdade de expressão durante a década de 70. O AI-5 foi revogado em 1979, a ditadura militar terminou oficialmente em 1985 e a Boca Maldita continua viva. ‘‘A Boca começou da brincadeira de um grupo de amigos e passou a assumir posições perigosas, representando a opinião pública’’, assegura o vice-presidente Antonio Penido Monteiro, 71 anos.
Entre os grandes momentos da Boca, Penido lembra da campanha iniciada pelos confrades contra denúncias de corrupção no governo de Haroldo
León Perez. Em 1970, Perez foi o único governador nomeado pelo regime militar a ser cassado. A Boca realizou o primeiro comício da campanha em favor da redemocratização brasileira, a Diretas-Já, em 1984. A idéia de eleição direta para presidente da república naufragou, mas não por culpa da Boca.
Para se tornar um cavalheiro não precisa ser de Curitiba. O único requisito recomendado aos candidatos é gostar de polêmica. Na reunião de anteontem, 60 pessoas receberam a medalha da Ordem da Boca Maldita. Eles foram selecionados entre 200 candidatos, afirma o presidente Anfrísio Siqueira. Antigamente dava-se preferência para as figuras folclóricas, hoje esse quesito não é fundamental.
A única restrição é a entrada de qualquer mulher. As únicas duas vezes que mulheres tentaram se ‘‘infiltrar’’ em reunião anual da Boca, elas foram retiradas do recinto com uso de ‘‘força moderada’’.
Os novos cavalheiros são escolhidos entre empresários, profissionais liberais, professores, magistrados e políticos. As principais figuras públicas a integrar a Boca Maldita são os ex-ministros Ciro Gomes e Fernando Lira, o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Sepúlveda Pertence, o presidente do Tribunal Regional Federal da 4ª região em Porto Alegre, Clotário Portugal Neto e o prefeito de Ponta Grossa, Jocelito Canto.
Como não poderia ser diferente, existe dissidência até mesmo entre os confrades da Boca Maldita. Um dos dissidentes, jornalista Luiz Geraldo Mazza, colunista da Folha do Paraná, diz que ‘‘a Boca real é muito maior que essa institucional’’. Por pensar assim, Mazza não participa das reuniões anuais da confraria há vários anos. ‘‘A verdadeira Boca é a dinâmica das pessoas que passam por aquela rua e não a institucionalização em um jantar anual’’, completa Mazza.

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