Boca do lixo concentra o agito na noite
PUBLICAÇÃO
sábado, 18 de abril de 1998
José Fernando da Silva e Guilherme Vieira 
O cruzamento das ruas Visconde de Nacar e Cruz Machado é o ponto inicial da prostituição no Centro de Curitiba. Em dias de chuva, o neon vermelho e azul dos luminosos forma um tapete de luz refletido no espelho do granito molhado das calçadas em frente às boates.
Chove. Na entrada da boate Stardust, estrelas da noite, nada empoeiradas, agitam os paetês e lantejoulas, observadas pelos seguranças da casa.
No mundo da prostituição deste final de século, todas as palavras relacionadas ao assunto assumem contornos politicamente corretos. O leão-de-chácara foi promovido à segurança. As expressões prostituta, mariposa ou mulher da vida são totalmente vedadas. O correto é acompanhante e, forçando um pouco, garota de programa. O gigolô, sujeito que vive dos rendimentos obtidos por suas mulheres, é agora chamado de empresário da noite ou simplesmente patrão.
O gerente da Stardust e da Metrô, Moisés de Mattos, o Carioca, diz costumar receber entre 100 e 200 meninas por noite. Elas não têm obrigação nenhuma de repassar dinheiro para a casa, aqui é apenas um ponto de encontro, nós ganhamos é na bebida vendida pelo bar, diz. Segundo Carioca, geralmente as famílias não sabem que suas filhas frequentam a boate. A maioria é de classe média, com idades de 18 a 22 anos. Elas dizem que estão nesta vida por não arrumarem trabalho melhor ou porque querem continuar os estudos, afirma o gerente. A princípio, quando novas, elas ganham bem, varia de mulher para mulher, mas a média de rendimento de cada uma é de R$ 100,00 por noite.
Mas tem aquelas que não têm tanta sorte assim. É normal eu receber aqui meninas chorando porque não conseguem dinheiro para comprar leite para seus filhos. O perigo é elas caírem no desespero. Ficam o mês inteiro sem programas e, quando arrumam, se submetem a qualquer desejo do cliente, inclusive transar sem camisinha, diz Carioca.
Joalheiro de profissão, 43 anos de idade, há 18 desempenhando a função de gerente de boate, Carioca conta que já viu muita mulher se arrumar ou desandar de vez na vida. Para que uma mulher se saia bem nesta profissão, ele aconselha três coisas: cuidado com a saúde, principalmente com a Aids; nunca se envolver com policiais e ficar longe das drogas.
Talvez por trabalharem dia e noite, os policiais frequentam muito boates e outras casas noturnas. O envolvimento com essas mulheres é quase inevitável. Alguns casais ficam algum tempo juntos, mas geralmente o policial é casado e a relação pode se transformar em uma coisa perigosa, com brigas e agressões, diz Carioca. Há também o caso de prostitutas que sofrem extorsão de policiais. Para não serem presas, elas entregam a eles o que ganharam durante a noite. Já no caso das drogas, geralmente existe uma prostituta mais antiga, que, com a idade, não mais consegue ganhar dinheiro com programas. Daí elas partem para o tráfico e viciam as mais novas.
Todas elas falam em mudar de vida, constata Carioca, mas poucas conseguem. Ele diz conhecer mulheres da noite que constituíram famílias e hoje estão muito bem. Porém, sua experiência mostra que muitas ficam dois ou três anos afastadas dessa vida e depois retornam. Na primeira briga, o marido joga na cara dela que a tirou da zona e tudo volta para a estaca zero. Segundo Carioca, a religião também pode ser um fator positivo para tirar uma mulher da prostituição. Ele diz que é comum ter evangélicas ganhando a vida no rebanho das boates. É fácil saber quando uma menina é evangélica aqui na casa. Elas são mais comportadas, não bebem muito, não são agressivas, não usam drogas e quase sempre a família não sabe de nada.


