Nos últimos 6 meses, 9 adolescentes deixaram o Centro de Sócio-Educação, mais conhecido como Educandário (Zona Sul). Um deles aproveitou um tumulto, no mês passado, e fugiu pelo telhado; os outros 8 saíram pela porta da frente e, de acordo com a direção da instituição, estão todos trabalhando e estudando. Para a diretora Laura Okamura, esses 8 rapazes são a prova de que a nova proposta pedagógica da instituição está no caminho certo. ''A gente não queria ficar falando muito antes porque percebemos que havia uma resistência e uma certa torcida para que a mudança aqui dentro não desse certo'', confessa. E acrescenta: ''Eu nunca duvidei que os meninos podem ser recuperados. Minha única dúvida era se a população teria paciência para esperar os resultados do nosso trabalho''.
A proposta a que Laura se refere foi implantada a partir de maio, depois que a instituição passou por uma ampla reforma e foi reinaugurada. Junto com os novos equipamentos de segurança, os educadores começaram um processo lento e difícil com os internos para fazer com que eles construam um novo projeto de vida. Quem acha que isso soa muito subjetivo, se engana: o Plano Personalizado de Atendimento (PPA) é um termo formal, um documento assinado pelo adolescente, pela equipe de trabalho e encaminhado para o juiz. Nesse documento, recomendado pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), o interno se compromete a cumprir uma série de metas para poder ter uma vida nova. E só depois de cumprir todas as metas é que ele vai ser liberado do Educandário.
O processo começa com o estabelecimento de vínculos entre os educadores e os adolescentes. ''Procuramos colocar sempre os mesmos educadores nas mesmas alas. Esse convívio faz com que seja possível conhecê-los, conversar com eles e até antecipar alguns problemas'', explica a psicóloga Aline Pedrosa Fioravanti. Esse relacionamento, apesar de pessoal, não é de amizade. ''Existe respeito e autoridade, mas só através dessa relação próxima é que a gente consegue conhecê-los como pessoas, para poder ajudá-los a mudar'', completa Ricardo Peres, coordenador dos educadores. A equipe que trabalha no Educandário acredita tanto nessa proposta que, lá dentro, os educadores entram e saem livremente das alas, sem nenhum equipamento de segurança ou guarda para protegê-los.
Transformação, em vez de punição. Essa é a filosofia do Educandário. Para sonhar com uma vida diferente, o adolescente infrator precisa, primeiro, querer mudar. ''Nada disso pode ser imposto. É preciso que ele se conscientize das coisas que fez e perceba aonde essas escolhas o estão levando. Esse é um processo que leva quase todos à depressão'', conta Aline.
É aí onde entram as oficinas de pintura, artesanato, culinária. ''Aprender a fazer um bolo ou uma dobradura de origami mostram ao adolescente que ele é capaz de criar, de fazer alguma coisa. Quando ele percebe isso, está pronto para começar a pensar naquilo que ele quer fazer de verdade'', explica Laura.
A partir daí, uma equipe de profissionais o ajuda a construir um novo projeto de vida. ''A primeira pergunta que a gente faz é quais são os sonhos desse adolescente. Como ele imagina que pode ser a vida dele, lá fora, longe do crime'', indica Aline. ''E vocês não imaginam como os sonhos deles são pequenos e simples'', pondera Laura.
Pedro (nome fictício), 19 anos, levou meses para admitir que o que ele mais queria na vida era ter um cachorro e ser office-boy; Lucas (nome fictício) queria ser palhaço; um outro garoto queria saber tocar violão. A equipe ajuda a transformar os sonhos em projetos -para poder ter um cachorro, Pedro teve que aprender como cuidar de um animal e também estudou matemática e carpintaria para construir uma casinha para o novo amigo.
Não basta ajudar apenas o adolescente. Segundo Aline, é preciso mudar também as circunstâncias que determinaram a infração. Isso significa, às vezes, transferi-lo para outra escola, ou até para uma outra cidade.
A média de permanência dos internos no Educandário é de 8 meses. ''Esse é o tempo que a gente precisa para trabalhar o PPA com eles'', admite Laura. ''Eles vão entendendo que o tempo é eles que fazem e que também são eles que determinam quando vão sair daqui'', acrescenta Aline.

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