São oferecidas 14 oficinas para as crianças a partir dos sete anos de idade
São oferecidas 14 oficinas para as crianças a partir dos sete anos de idade | Foto: Fotos: Saulo Ohara



Rolândia - Há 46 anos, a Unidade Social Nossa Senhora Aparecida, em Rolândia (Região Metropolitana de Londrina), acolhe crianças de zero a 12 anos de idade em condição de vulnerabilidade ou risco social, referenciadas pelo Centro Regional de Assistência Social (Cras). As menores, de zero a 6 anos, são atendidas em período integral no Recanto dos Anjos. A partir dos 7 anos, elas são assistidas pelo Projeto Union, que oferece atividades de contraturno escolar, com 14 oficinas, entre artes, capoeira, informática, balé, vôlei e teatro. Há 46 anos, a instituição não para. Não há férias nem feriados. Pela manhã, as crianças frequentam o espaço das 7h30 às 12h30 e, à tarde, das 12 às 17 horas. No local, elas recebem café da manhã, almoço e lanche e o mais importante, a perspectiva de um futuro melhor do ponto de vista econômico, social e emocional. Uma das principais preocupações da instituição é desenvolver ações preventivas e de promoção humana e empoderamento.

O prédio onde funciona o Projeto Union tem capacidade para abrigar 150 crianças, mas apenas 50 são atendidas. Outras 300 estão na fila de espera por uma vaga na unidade. "Para atender com qualidade as 150 crianças, faltam recursos financeiros. Se for para fazer como um depósito, a gente prefere não fazer", disse a assistente social do projeto, Daniele DeSilvio Caon. Cada criança custa cerca de R$ 400 à instituição e, além de repasses oficiais, os recursos vêm de ações voluntárias.

Da unidade social já saíram histórias com muitos finais felizes. Crianças carentes que ingressaram no projeto e tiveram o apoio necessário para conseguir terminar os estudos e ter uma profissão. "Temos crianças que passaram por aqui e hoje são professores de música, advogados, administradores, há pessoas que hoje moram no exterior", orgulha-se a irmã Elizabeth Mendes, da Congregação das Irmãs Franciscanas do Coração de Jesus, mantenedora da unidade.

Fábio Alves, de 36 anos, é ex-aluno da instituição: hoje é professor de música
Fábio Alves, de 36 anos, é ex-aluno da instituição: hoje é professor de música



Fábio Alves, de 36 anos, é ex-aluno da instituição. Ele começou a frequentar o projeto em 1988, aos 7 anos de idade, e aos 17 anos tornou-se responsável pela oficina de marcenaria, ensinando às crianças como trabalhar a madeira. Hoje, ele é professor de música. "Tudo eu aprendi aqui, a mexer com horta, cuidar de coelhos, limpar piscina, marcenaria, bordado, pintura e música. Foi no piano daqui que tive as primeiras noções musicais. O tempo que fiquei no projeto foi muito significativo. Tantas coisas eu sei fazer hoje porque aprendi aqui dentro."

No Projeto Union, Fábio ensina rítmica e coordenação para o desempenho motor e psicomotor de 50 alunos. "Não ensino só música. Tento passar o meu exemplo na sala de aula e tento plantar a semente para ver no que vai dar."

O mesmo fazem o educador social Carlos Alberto Sant'Ana e o contramestre Angolinha, responsáveis pela oficina de capoeira. "Além de ser um esporte, a capoeira é dança, é disciplina. Trabalha o corpo, a respiração e a mente e a gente percebe mudanças não só na escola, mas dentro de casa também porque o principal efeito da capoeira é a disciplina", disse Sant'Ana. "Tenho muito carinho por esses alunos porque comecei em um projeto assim, como aluno, e hoje sou professor", acrescentou. "A capoeira eleva a autoestima e a autoconfiança das crianças", destacou mestre Angolinha.

Wilker Rodrigues da Cruz, de 7 anos, está no 2º ano da Escola Municipal Geralda Chaves, que atua em parceria com a Unidade Social Nossa Senhora Aparecida. Ele começou no Recanto dos Anjos e hoje frequenta as oficinas do Projeto Union, onde faz balé, informática, vôlei, futsal e capoeira. "Gosto tanto daqui que se tivesse uma casinha ao lado da creche eu moraria", disse. "Antes, quando eu não estava na escola, ficava em casa. Em 2015 entrei para o projeto e aqui aprendo muitas coisas, como o balé, a capoeira e a flauta. É muito divertido", contou Letícia Emanuelle Mendes Ferreira, de 9 anos.

Os 46 anos de trabalho ininterrupto da instituição renderam ao projeto uma condecoração, em 2015, por ter chegado à semifinal do Prêmio Itaú-Unicef, criado para reconhecer e estimular parcerias entre organizações da sociedade civil e escolas públicas. A iniciativa estimula o desenvolvimento de projetos socioeducativos que contribuam com as políticas públicas de educação integral para alunos em condição de vulnerabilidade socioeconômica. Das 50 crianças de 7 a 12 anos de idade que frequentam o Projeto Union, 42 são alunos da Escola Municipal Geralda Chaves, parceira no projeto.

"Para a gente é muito boa essa parceria. É o complemento que a escola não tem o suporte para dar e a gente percebe que as crianças que frequentam o projeto são mais desenvoltas. As oficinas não são diretamente ligadas ao conteúdo pedagógico, mas ajuda a desenvolver o pedagógico", avaliou a diretora da Escola Municipal Geralda Chaves, Leise Moraes Camargo.

RECONHECIMENTO
Neste ano, o Prêmio Itaú-Unicef chega à 12ª edição, com o tema "Educação Integral: parcerias em construção", que tem como objetivo incentivar parcerias alinhadas com a ideia de ampliação de tempos, espaços e conteúdos de aprendizagem. "Para que a educação integral se concretize, é preciso reconhecer que as oportunidades de aprendizagem podem ocorrer dentro e fora dos muros da escola. A educação integral se dá em diferentes espaços, com diferentes atores, desenvolvendo diferentes linguagens", destacou a superintendente da Fundação Itaú Social, Angela Donnemann, em São Paulo, durante cerimônia de lançamento do prêmio.

"A gente é a favor de aproveitar todas as potencialidades e incentivar os municípios a implantarem a educação integral em parceria com as Organizações da Sociedade Civil (OSCs)", acrescentou Anna Helena Altenfelder, superintendente do Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária (Cenpec), órgão que integra a coordenação técnica da premiação.

O representante do Unicef no Brasil, Gary Stahl, lembrou que entre 5% e 6% das crianças e adolescentes brasileiros em idade escolar estão fora das instituições de ensino, o que corresponde a cerca de 3 milhões de pessoas, e ele defende que o País precisa fazer um esforço extremo para alcançar esse público. "O atraso escolar é um dos principais motivos para o abandono escolar e a educação integral evita e previne o abandono. A proposta de educação integral pode ser uma grande estratégia para superar as enormes desigualdades que ainda existem no Brasil."

*A repórter viajou a São Paulo a convite da Fundação Itaú Social e do Unicef

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