BOA INICIATIVA - Filha de Rubem Alves se emociona ao conhecer projeto
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quinta-feira, 09 de março de 2017
Vítor Ogawa<br>Reportagem Local 
Ao ser contatada pela equipe do Hospital do Coração de Londrina relatando que o livro "A Operação de Lili" é usado para amenizar o sofrimento das crianças, a filha de Rubem Alves, Raquel Alves, se emocionou e chorou. Foi às lágrimas também quando viu, nesta quarta-feira (8), as ilustrações inspiradas na obra, feitas pela artista plástica Raquel Carraro nas paredes do hospital.
A carga de emoção possui uma razão. O livro foi inspirado em Raquel, que quando era criança passou por várias cirurgias, porque ela nasceu com lábio leporino (fissura labiopalatal). "Eu lembro que já estava de camisola cirúrgica e pronta para entrar na sala quando meu pai leu para mim a história, escrita no papel datilografado", conta. Ou seja, a Lili retratada no livro foi inspirada em Raquel. "Não é o livro infantil mais conhecido de meu pai, mas com certeza é o que foi mais longe. Como se ela tivesse vida própria. Uma obra sempre desejaria ser uma coisa real e essa ultrapassou e muito o que meu pai idealizou", declarou Raquel, com lágrimas nos olhos. "Entre todos os convites que recebi até hoje, vir aqui foi o que gerou mais ansiedade. Eu sou a personagem que está pintada na parede. Isso aqui de certa forma é a eternização da memória e reinventada pela história de outras crianças", declara a filha de Rubem Alves.

Na época em que Rubem Alves escreveu a história, Raquel tinha seis anos de idade. "Ele disse: você percebeu que você é a Lili? Você é o elefantinho", relembra. Outro detalhe resgatado de suas memórias é que o nome do médico que iria operá-la se chamava Merlin e na história virou o Doutor Coruja. "A enfermeira nem me colocou na maca. Me pegou no colo e eu fui assim para o centro cirúrgico", observa.
Ela revela que a partir da conquista da livre docência do pai, houve uma mudança no pensamento e no texto dele. "Conquistar a livre docência significava que ele não seria mais demitido. Aí ele deixou a linguagem acadêmica e passou a escrever sobre coisas ditadas pelo coração e pelo sangue. Antes os livros tinham uma linguagem impessoal, mas quando nasci e ele ficou sabendo do lábio leporino, achou que a obra dele poderia me ajudar e poderia ajudar a humanidade", destaca.
A psicóloga Ana Carolina Vieira de Souza e Silva, do hospital, relata que a vinda da Raquel Alves a Londrina foi a concretização desse sonho de realizar esse projeto. "Ela contou sobre tudo o que passou e o seu relato é o que a gente vê e vive todos os dias", destaca.
"Teve uma menina que sofreu uma fratura em um acidente e pegou os bichinhos (do fantoche). Foi para uma área externa e estava feliz. Não tem nada que pague por isso. As crianças passam por um hospital como se fosse por um parque infantil. Tentar trazer alegria e essa coisa gostosa para o ambiente hospitalar é gratificante. O riso, a contação de história, o acolhimento, o vínculo que se estabelece faz tanto efeito quanto os remédios", afirma a psicóloga.
Escritor, pedagogo e teólogo
Rubem Alves (1933-2014), foi autor de livros religiosos, educacionais, existenciais e infantis. É considerado um dos maiores pedagogos brasileiros, um dos fundadores da Teologia da Libertação e intelectual polivalente nos debates sociais no Brasil. Foi professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Sua filha Raquel é arquiteta e é a atual presidente do Instituto Rubem Alves, cuja missão é disseminar e eternizar o legado do pai.
Raquel e Rubem Alves nunca chegaram em um acordo sobre qual foi o primeiro livro infantil que ele escreveu. "Para mim foi Como nasceu a alegria, mas meu pai achava que era A menina e o pássaro encantado", relata. O primeiro conta a história de uma flor que é diferente das outras por possuir uma pétala cortada por um espinho e vive essa diferença, com muita dor e tristeza. "Esse livro meu pai escreveu depois que eu me recusei a ir para a escola. Sofria muito bullying (por causa do lábio leporino) e revelei a ele o que estava acontecendo", conta Raquel. O tema sobre ser diferente voltou no livro "A porquinha de rabinho esticadinho".
Já o livro "A menina e o pássaro encantado" conta a história de uma garota que amava um pássaro que viajava sempre. Toda vez que viajava suas penas adquiriam cores do lugar que visitou, mas a menina morria de saudades. "Na época ele viajava muito. Eu me recordo que ele foi ao Japão e trouxe um cartão postal com uma ave japonesa toda colorida." (V.O.)


