Todo mundo já foi criança um dia e sabe dos medos que passou diante de situações desconhecidas. Para os pequenos que precisam ir ao hospital isso pode ser ainda mais assustador. No entanto para Giovana Beatriz, de 7 anos, e seu irmão Olavo Danilo, de 8, a situação foi bem tranquila. Há pouco menos de um mês eles foram submetidos a cirurgias na garganta e no nariz, mas a serenidade deles ao contar como foi é surpreendente. "A cirurgia foi legal. Não fiquei com medo. Eu sou corajosa", dizia Giovana. Já Olavo se lembra apenas de de dormir muito naquele dia.

As duas crianças se submeteram às cirurgias no dia 10 de fevereiro e reagiram bem. O "segredo" é que o Hospital do Coração de Londrina encontrou uma maneira lúdica para acalmar as crianças antes e depois das intervenções. Elas ouvem uma história chamada "A Operação de Lili", do escritor Rubem Alves. É sobre a elefantinha Lili, que brincava com o sapo Gregório, e acabou acidentalmente aspirando seu amigo com a tromba. Foram feitas muitas tentativas de retirá-lo, mas nenhuma funcionou. Lili achou que teria de deixar Gregório para sempre em sua tromba. Mas eis que a Fada da Floresta fez Lili dormir e ter belos sonhos enquanto o Doutor Coruja realizava a cirurgia. Ao acordar, Lili viu seu amigo Gregório são e salvo e só teve de ficar com a tromba enfaixada por alguns dias.

Giovana Beatriz e Olavo Danilo: sem medo dos procedimentos
Giovana Beatriz e Olavo Danilo: sem medo dos procedimentos | Foto: Fábio Alcover



As paredes dos corredores, do centro cirúrgico e da Unidade de Terapia Intensiva (UTI) foram pintadas com personagens e paisagens que remetem a essa fábula. "Mesmo um pouco grogues por causa da medicação as crianças entram na sala de cirurgia perguntando onde está a Lili e o Gregório", revela a anestesiologista Karin Aota Takenobu Gonik. Ela mesma acabou sendo conhecida pelas crianças como Fadinha, responsável por fazer a Lili dormir e ter os belos sonhos. "Essa história ajuda mesmo a diminuir a tensão. Esse clima deixa tudo mais descontraído", afirma.

Segundo a assistente social do hospital, Júlia Pupin Santos, as crianças fantasiam muito e tudo que é diferente tem uma carga. "Na história a gente trabalha todas as questões, desde o consultório, o que acontece quando o remédio não faz efeito, como será a cirurgia, como será o pós-operatório. A gente vê a resposta tanto dos pais como dos profissionais envolvidos e das próprias crianças", destaca.

A profissional observa que há diferenças entre crianças que passaram e não por esse serviço. "Os pais ouvem a historinha juntos, fazem perguntas e esclarecem todas as dúvidas. Lá eles conhecem a equipe, o processo cirúrgico e criam vínculo com a equipe", relata a assistente social. Por meio da fantasia o médico vira coruja, o paciente se torna elefante e assim por diante. "Por exemplo, o pernilongo é a picada da anestesia que irá receber", conta Júlia.

FANTASIA
Íris de Souza, mãe de Giovana Beatriz e de Olavo Danilo, confirma a eficácia do projeto. Íris explica que ela e o marido Éder de Souza haviam pesquisado sobre as cirurgias na internet e estavam receosos. "Quando viemos procurar a psicóloga e a assistente social do hospital, elas simplificaram para uma linguagem que as crianças pudessem entender e tudo foi transformado em Lili, Corujão, Garças. Meus filhos dançaram na cama para ver o Doutor Corujão", observa.

O projeto existe desde que a unidade Bela Suíça do hospital do Coração foi criada, há um ano e meio. Cerca de 80 crianças já ouviram a história da operação de Lili. "Ele foi passando por várias transformações desde que foi criado até chegar no formato de hoje", conta a assistente social. Ela ressalta que hoje o hospital entrega fantoches para as crianças ao final da apresentação.

Toda história precisa de um narrador e nesse caso o papel é atribuído à psicóloga Ana Carolina Vieira de Souza e Silva. "A criança funciona a partir do lúdico. Não teria como conversar sobre o procedimento cirúrgico senão pela via de acesso dela, através das histórias e da fantasia e a história do Rubem Alves traz para a gente", conta.

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