Boa fase permite realização de sonhos
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quinta-feira, 06 de agosto de 1998
Lucilia Okamura 
Dekasseguis que estão passando dificuldades no Japão e não têm, inclusive, dinheiro para voltar ao Brasil fazem parte de uma realidade que começou a ser conhecida há pouco tempo. Há alguns anos (final da década de 80 e início dos anos 90), os descendentes de japoneses encontravam outras condições de trabalho: não existia a crise asiática, os salários eram melhores e as horas-extras, abundantes.
Histórias sobre dekasseguis que fracassaram naquela época não eram comuns. Muitos descendentes que foram trabalhar no Japão na chamada fase áurea conseguiram juntar dinheiro e voltar ao Brasil para realizar investimentos. É o caso do comerciante Clineu Teuro Nakayama, 46 anos, de Londrina, que foi para o Japão em 1990. Casado, com três filhos, na época Nakayama era funcionário de uma relojoaria resolveu ir para o Japão para ter um negócio próprio.
Paulo WolfgangDedicaçãoTeruo Nakayama: solidão, jornada árdua e pouco lazer: Gastava só o suficiente para me alimentarFui com o objetivo de ficar lá um ano e só trabalhando, observa. Bastante determinado, Nakayama diz que evitou fazer passeios para não gastar. A minha diversão era, aos domingos, pescar em um rio próximo do local onde morava, revela. Ele ficou no Estado de Guifu, em uma cidade do interior, trabalhando em uma fábrica de rolamentos de motores para ar-condicionado.
Nakayama relata que a carga horária era de oito horas e costumava fazer de quatro a seis horas-extras. Segundo ele, como o ritmo de trabalho era diferente do Brasil, demorou cerca de um mês para acostumar. Mas a maior dificuldade que enfrentou foi a solidão. Deixei a mulher e três filhos no Brasil e sentia muita falta deles porque sempre fomos bastante unidos, afirma.
Ao final de um ano, o comerciante juntou cerca de US$ 40 mil e voltou a Londrina para abrir uma relojoaria. Fui decidido a ganhar dinheiro para montar uma pequena empresa, que pudesse ser administrada pela família, ressalta. A relojoaria Lanco fica na avenida Duque de Caxias (área central).
Além das horas-extras, Nakayama lembra que na época, havia algumas mordomias para os trabalhadores. As fábricas davam alojamento e condução para o serviço. A gente gastava, basicamente, com a alimentação, explica. Ele revela que hoje teria que pensar muito antes de se arriscar a ir para o Japão. A crise lá não está fácil, resume.
Nakayama acredita que, além da crise asiática, muitos brasileiros passam por dificuldades porque não vão com um objetivo definido. A pessoa tem que ir com a responsabilidade de trabalhar e não gastar. Às vezes, ela vai para lá, ganha, mas não guarda dinheiro e fica sem uma reserva para no caso de ter que voltar para o Brasil, afirma.
Luiz Carlos Igarashi, 33 anos, também de Londrina, acredita que um dos motivos dos brasileiros estarem passando dificuldades é o fato de não terem se adaptado às condições de trabalho no Japão. A mentalidade no Japão é muito diferente e, às vezes, o brasileiro não se acerta na empresa e já quer sair para outra, resume.
Igarashi é engenheiro-agrônomo e foi para o Japão em 1991. Depois de quatro anos e meio, voltou ao Brasil e, com um sócio que conheceu no Japão, Marcelo Horikawa, montou um restaurante self-service, o Tatanka. Ele lembra que, a princípio, pretendia ficar dois anos no Japão. Mas o custo de vida é alto e há também a facilidade de consumo. As lojas ficam abertas de segunda a segunda e a gente acaba gastando, confessa.
Igarashi diz também que demorou para voltar porque não se decidia sobre o que faria no Brasil. Voltar e trabalhar como empregado seria difícil, ressalta. Foi quando conheceu Horikawa, que tem experiência na área de cozinha. Ele conta que antes de decidir pelo restaurante, fez estudos e uma pesquisa em restaurantes de outras cidades.
O prédio onde está instalado o restaurante foi construído com recursos do agrônomo, do sócio, da irmã e do pai de Igarashi. Na opinião de Igarashi, 80% da expectativa foram cumpridos. Estamos indo bem, mas ainda falta fazer muita coisa, como melhorar o atendimento e ampliar o espaço, afirma.


