‘‘Quem tem voz para falar pelos bichos, pela mata, pelas águas?’’. A pergunta é da bióloga catarinense Genoveva Maurique, que atua na Geradora Elétrica do Sul do Brasil (Gerasul), sucessora da Eletrosul. Ela acompanha, por exemplo, o projeto da hidrelétrica de Itá, no Rio Uruguai, no Oeste de Santa Catarina. A resposta à pergunta é óbvia: ‘‘Nós, as pessoas, e por isso precisamos falar por eles’’. Genoveva acrescenta que, embora sejam vitais para o ecossistema, os outros elementos, que não os seres humanos, ‘‘não sabem se defender’’.
Paulo Bezerra Neto acrescenta que a preocupação com outros elementos da natureza, além do homem, também influiu na decisão do Ministério Público estadual do Mato Grosso do Sul, de barrar o enchimento do reservatório da hidrelétrica ‘‘Sérgio Mota’’. Os impactos desta barragem são considerados ‘‘burros’’, segundo a expressão mais leve usada por ambientalistas para definir seus efeitos e a relação custo-benefício do projeto. Ele tinha custo estimado inicialmente em R$ 4,8 bilhões, mas depois de quase 20 anos de obras e adaptações, deve chegar a mais de R$ 9 bilhões, para uma potência de geração de 1.840 MW.
O reservatório terá 2.250 quilômetros quadrados, dos quais 1.850 em terra, sendo 80% no vizinho estado de Mato Grosso do Sul, encobrindo várzeas com fauna típica. A ‘‘Sérgio Mota’’ poderá gerar apenas um terço mais que Salto Caxias, cujo reservatório será quase 20 vezes menor, e o custo do projeto nove vezes menor. Em relação à hidrelétrica de Itaipu, historicamente contestada pelo gigantesco alagamento, ela gera quase sete vezes mais que o possível na usina paulista, embora seu reservatório tenha apenas pouco mais da metade do previsto para o empreendimento da Cesp.
Nas várzeas do Rio Paraná há capivaras, jacarés, cervos e outros animais em risco de extinção, potenciais vítimas dos alagamentos previstos, observa Paulo Bezerra Neto. Apenas parte do reservatório foi enchido, por causa da intervenção do Ministério Público. Fernando Dal’Ava, coordenador de Fauna do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama), afirma que novas etapas dos alagamentos só serão licenciadas ‘‘se todas as questões ambientais estiverem resolvidas’’. O próprio Ibama, maior instância entre os órgãos ambientais do País, é co-réu no processo movido pelo Ministério Público.
A bióloga Beloni Pauli Martere observa que, sempre que se descaracteriza o meio ambiente, ocorrem impactos em diversos graus, ‘‘até mesmo quando se limpa e nivela o terreno para construir uma casa’’. Em barragens, os efeitos podem ser devastadores, pois à medida em que se reduzem ou se eliminam matas, desaparece a variabilidade de espécies - podendo ocorrer aí a perigosa consanguinidade.
Para a bióloga, a preocupação em áreas de impacto, como barragens, deve ser maior com a relação entre as espécies, e com o fato de que ‘‘grandes áreas preservam grandes populações’’. Especialista em questões da Mata Atlântica, ela observa que aquele é um dos ecossistemas de maior diversidade do mundo mas ao mesmo tempo com preservação entre as mais ameaçadas. Beloni relata que alguns animais só existem onde há total preservação - caso do gavião-real, que pode ter 2 metros entre as asas estendidas. ‘‘Onde ele estiver, é porque a área é preservada’’, diz.
A bióloga observa que o enchimento de reservatórios causa impacto ‘‘em curto espaço de tempo’’, por isso ocorre rapidamente a supressão ‘‘de áreas e indivíduos’’. Em áreas remanescentes (não alagadas) pode não ser possível a reacomodação dos animais em fuga, ‘‘porque os bichos têm seus nichos, e novos grupos podem não ter espaços’’. Beloni afirma que, quando se faz estudo para construir uma hidrelétrica, ‘‘já se deve pensar nos bichos’’. Quando é inevitável a destruição de seu habitat, ‘‘é preciso ter unidades de conservação com características semelhantes para sua transferência’’.
O biólogo Sérgio Morato, da Copel, que coordenará o salvamento de animais no reservatório de Salto Caxias, cita o caso do macaco-prego, que não deve ser acantonado em áreas onde já existem outros macacos, ‘‘porque ele é extremamente predador’’. Ele salienta o risco de transferir determinadas espécies sem que se transfiram outras das quais elas se alimentam - caso do cachorro-do-mato que come ratos. O mesmo ocorre com serpentes.
As muçuranas, por exemplo, imunes ao veneno de outros répteis (menos a cobra coral), estão presentes na floresta da Estação Ecológica do Rio Guarani, em Três Barras do Paraná, imediações de Salto Caxias. A estação foi criada pela Copel em área longe das margens do Rio Iguaçu, porque nelas não há mais florestas. Sérgio Morato afirma que na região a ser alagada há cerca de 40 espécies de cobras, das quais ‘‘quatro ou cinco peçonhentas’’.

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