Binário é último recurso para ordenar fluxo
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 08 de julho de 1998
Eledovino Bassetto Junior 
A construção de eixos binários (vias paralelas com tráfego em sentidos contrários) é, na avaliação do Instituto de Pesquisa e Planejanento Urbano de Curitiba (Ippuc), a única maneira de redistribuir o movimento de automóveis e melhorar o trânsito na cidade. O binário é, na realidade, uma ponte de safena, que implantamos quando uma via está saturada e não há mais condições de ordenar o fluxo de veículos, diz José Álvaro Twardowski, coordenador do programa Cidadão em Trânsito.
Mas, enquanto a prefeitura planeja implantar ao todo 28 binários na cidade, a resistência dos moradores de tranquilas ruas que passarão a ter um tráfego intenso continua a render discussões. Os habitantes das regiões envolvidas se dividem quanto aos benefícios e prejuízos da mudança: de um lado, moradores estão preocupados com o aumento do movimento de automóveis e, de outro, comerciantes temem prejuízos com a rua num só sentido.
Marcelo Almeida...o que revoltou Marli Bento, para quem a rua virou um infernoPara Twardowski, a principal vantagem dos binários é a redução dos acidentes. Com a via em sentido único, diz ele, não haverá conversões à esquerda, quando há necessidade de enfrentar o tráfego em sentido oposto, causando as colisões angulares, muito comuns em vias de mão dupla. Além disso, tem o fator de segurança dos pedestres, que muitas vezes se arriscam a ficar no meio da rua, porque o tráfego em dois sentidos não permite que se atravesse a rua de uma só vez, pondera Twardowski. Outro ponto indicado como positivo é a valorização dos imóveis da rua paralela à que tem grande movimento. Na prática, serão duas ruas com importância igual, o que cria oportunidades de negócios, opina.
A reclamação dos comerciantes (como os da Rua Augusto Stresser, onde a prefeitura planeja um binário para o ano que vem) não faz sentido, na avaliação do técnico do Ippuc. Um binário divide o tráfego, não retira o movimento. Ele cria um conforto para quem circula pela rua, que, afinal, é pública, alfineta ele.
Rua cheia - No bairro Bacacheri, onde a Prefeitura implantou um dos primeiros binários há mais de um ano (Avenida Erasto Gaertner e Rua Nicarágua), se repete o questionamento verificado no Hugo Lange (Augusto Stresser e Dr. Goulin), onde a prefeitura planeja outro binário. A rua que já tinha movimento (Erasto Gaertner) continua cheia, mas o tráfego é mais ordenado e rápido.
O gerente da tradicional Panificadora Aquário, Valdir Anzolin, diz que o movimento diminuiu um pouco, mas acredita que esse decréscimo se deva à dificuldade para estacionar. A rua com um só sentido realmente melhora o movimento, mas os acidentes continuam acontecendo. Aqui na minha quadra temos um acidente a cada 15 dias, conta ele. Na rua que era tranquila e agora experimenta picos de até dois mil carros por hora, a Nicarágua, a dona de casa Marli Bento é só reclamações: Depois que mudou, a rua virou um inferno, com muitos carros passando e dificuldades enormes para atravessar a pista. Antes, as crianças podiam até brincar na rua, mas hoje isso é um grande risco de vida, diz ela.
Enquanto a polêmica segue, o técnico do Ippuc faz uma ponderação, solicitando compreensão da população. O benefício tem de ser considerado numa extensão maior, porque quem mora numa rua tranquila nunca vai querer mil carros passando na sua porta no horário de pico. Mas é necessário entender que o binário é construído para amenizar os problemas de tráfego e não para criar mais transtornos. Este ano, a prefeitura pretende terminar mais dois binários, no bairro Mercês: um no prolongamento das ruas Brigadeiro Franco e Desembargador Motta (Rua Tenente João Gomes da Silva e Júlio Perneta) e outro na continuação da Manoel Ribas (ruas Marcelino Champagnat e Rosa Saporski).


