A construção de eixos binários (vias paralelas com tráfego em sentidos contrários) é, na avaliação do Instituto de Pesquisa e Planejanento Urbano de Curitiba (Ippuc), a ‘‘única maneira’’ de redistribuir o movimento de automóveis e melhorar o trânsito na cidade. ‘‘O binário é, na realidade, uma ponte de safena, que implantamos quando uma via está saturada e não há mais condições de ordenar o fluxo de veículos’’, diz José Álvaro Twardowski, coordenador do programa Cidadão em Trânsito.
Mas, enquanto a prefeitura planeja implantar ao todo 28 binários na cidade, a resistência dos moradores de tranquilas ruas que passarão a ter um tráfego intenso continua a render discussões. Os habitantes das regiões envolvidas se dividem quanto aos benefícios e prejuízos da mudança: de um lado, moradores estão preocupados com o aumento do movimento de automóveis e, de outro, comerciantes temem prejuízos com a rua num só sentido.
Marcelo Almeida...o que revoltou Marli Bento, para quem a rua virou um infernoPara Twardowski, a principal vantagem dos binários é a redução dos acidentes. Com a via em sentido único, diz ele, não haverá conversões à esquerda, quando há necessidade de enfrentar o tráfego em sentido oposto, causando as colisões angulares, muito comuns em vias de mão dupla. ‘‘Além disso, tem o fator de segurança dos pedestres, que muitas vezes se arriscam a ficar no meio da rua, porque o tráfego em dois sentidos não permite que se atravesse a rua de uma só vez’’, pondera Twardowski. Outro ponto indicado como positivo é a valorização dos imóveis da rua paralela à que tem grande movimento. ‘‘Na prática, serão duas ruas com importância igual, o que cria oportunidades de negócios’’, opina.
A reclamação dos comerciantes (como os da Rua Augusto Stresser, onde a prefeitura planeja um binário para o ano que vem) não faz sentido, na avaliação do técnico do Ippuc. ‘‘Um binário divide o tráfego, não retira o movimento. Ele cria um conforto para quem circula pela rua, que, afinal, é pública’’, alfineta ele.
Rua cheia - No bairro Bacacheri, onde a Prefeitura implantou um dos primeiros binários há mais de um ano (Avenida Erasto Gaertner e Rua Nicarágua), se repete o questionamento verificado no Hugo Lange (Augusto Stresser e Dr. Goulin), onde a prefeitura planeja outro binário. A rua que já tinha movimento (Erasto Gaertner) continua cheia, mas o tráfego é mais ordenado e rápido.
O gerente da tradicional Panificadora Aquário, Valdir Anzolin, diz que o movimento diminuiu um pouco, mas acredita que esse decréscimo se deva à dificuldade para estacionar. ‘‘A rua com um só sentido realmente melhora o movimento, mas os acidentes continuam acontecendo. Aqui na minha quadra temos um acidente a cada 15 dias’’, conta ele. Na rua que era tranquila e agora experimenta picos de até dois mil carros por hora, a Nicarágua, a dona de casa Marli Bento é só reclamações: ‘‘Depois que mudou, a rua virou um inferno, com muitos carros passando e dificuldades enormes para atravessar a pista. Antes, as crianças podiam até brincar na rua, mas hoje isso é um grande risco de vida’’, diz ela.
Enquanto a polêmica segue, o técnico do Ippuc faz uma ponderação, solicitando compreensão da população. ‘‘O benefício tem de ser considerado numa extensão maior, porque quem mora numa rua tranquila nunca vai querer mil carros passando na sua porta no horário de pico. Mas é necessário entender que o binário é construído para amenizar os problemas de tráfego e não para criar mais transtornos’’. Este ano, a prefeitura pretende terminar mais dois binários, no bairro Mercês: um no prolongamento das ruas Brigadeiro Franco e Desembargador Motta (Rua Tenente João Gomes da Silva e Júlio Perneta) e outro na continuação da Manoel Ribas (ruas Marcelino Champagnat e Rosa Saporski).

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