A idéia de que os livros devem ser colocados no caminho das pessoas, e não esperar que o acaso as leve até as letras, está sendo semeada em Londrina. O terreno para isto têm sido as bibliotecas comunitárias, que nascem em bairros carentes como uma possibilidade de acesso a novos mundos. Mundos que nem sempre estão em sofisticadas obras literárias ou complicados estudos técnicos, mas também em textos simples, como por exemplo um livro de receitas.
Foi atrás de um exemplar deste tipo que a estudante Beatriz de Oliveira, de 12 anos, recorreu à biblioteca montada no Jardim Santa Fé (Zona Leste), no início da semana. ''Vim atrás de receitas de doces'', confessou a assídua frequentadora do espaço, que foi montado há dois anos no centro de convivência da Capela Santa Ana, que também abriga vários outros projetos sociais e religiosos. Na maioria das vezes, a adolescente vai até a biblioteca em busca de informações para trabalhos de escola. ''Sempre encontro o que preciso'', diz.
O pai de Beatriz, Aparecido de Oliveira, costuma acompanhar a filha nas incursões pela leitura. ''Eu não tenho muito tempo de ler, mas estou procurando dar para ela um encentivo que não tive'', conta o trabalhador autônomo, que aos 7 anos teve a infância ''roubada'' para ajudar a família no serviço pesado da roça. ''Sonho em dar estudo para minha filha. Quem sabe um dia ela faça uma faculdade.''
Certamente a intuição e cuidado de pai apontaram-lhe o caminho certo. Maria de Lourdes Malta, monitora da biblioteca do Santa Fé, é um exemplo de como a leitura pode mudar os rumos de uma vida. ''Eu comecei a frequentar a Biblioteca Pública (no Centro) com o meu cunhado, e isso, mais o processo de trabalho em comunidade, me incentivou a fazer uma faculdade'', conta a estudante de Pedagogia da Universidade Estadual de Londrina (UEL).
Na biblioteca comunitária, Maria de Lourdes acompanha alunos que vão em busca de informações para trabalhos de escola, faz a catalogação de novos títulos (já são cerca de 3,5 mil), atende visitantes e sonha com os projetos que quer ver funcionando em 2007. ''Vamos tentar fortalecer a Hora do Conto e a Hora do Filme; implantar a tarde de jogo e colocar em funcionamento a bilioteca virtual.''
Na ainda recente história da biblioteca, alguns relatos são emocionantes. ''Outro dia uma catadora de papel achou uma enciclopédia no lixo e nos ligou. Ela podia ter vendido, mas em vez disso nos doou'', conta Maria de Lourdes. Segundo ela, um dos problemas para conseguir aumentar o acervo é a falta de transporte para buscar os livros doados. ''Muita gente nos liga querendo fazer doação, mas não tem como trazer, e a gente nem sempre tem como buscar.''
Em outro canto cidade, no Jardim Franciscato (Zona Sul), mais de 2 mil livros já foram arrecadados e vêm sendo catalogados por alunos de Biblioteconomia da UEL. A nova biblioteca comunitária vai entrar (oficialmente) em funcionamento no início de 2007, em uma das salas da Associação das Mulheres Batalhadoras do Jardim Franciscato. No mesmo prédio, em 2002, foi montada uma biblioteca virtual, que deu abertura à implantação de vários projetos sociais, mas nunca conseguiu recursos para dotar de internet os computadores existentes.
''Informalmente, a biblioteca já funciona desde 2004, quando os livros começaram a ser juntados e acomodados em tábuas sobre tijolos. Vários estudantes e alguns adultos já vinham até aqui para estudar ou ficar folheando os livros. Acho que este espaço é muito importante. Só aqui da nossa comunidade, 12 jovens passaram no vestibular da UEL do ano passado'', diz orgulhosa Rosalina Batista, presidente da Associação.
Uma parceria com o Rotary Club Londrina Nordeste deu o impulso que faltava, com a doação de móveis, livros infantis e fichas para empréstimo. ''Também queremos montar uma brinquedoteca.'' Rosalina olha para as paredes já forradas de livros e afirma que tudo que existe ali é da comunidade, acima de tudo dos jovens. ''Este tem que ser um espaço aberto a todos. É dentro de uma biblioteca que as pessoas conseguem enxergar outras vivências; é o lugar onde estão o passado e o presente. Acho que a biblioteca é um lugar que abriga sonhos, e quem não sonha não investe em mudanças.''

Serviço: Interessados em doar livros para as bibliotecas comunitárias podem entrar em contato pelos fones (43) 3336-9970 (Santa Fé) e 3342-6773 (Franciscato)

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