Berço da democracia condena a guerra
A Guerra da Iugoslávia está despertando os balcânicos para o atual quadro de dominação política do mundo, diz o grego Dimitris Vergiris, engenheiro de navios no Porto de Pireos, o maior de Atenas, onde estão sendo realizados diversas manifestações contra a chegada de tanques e equipamentos de guerra enviados pela Otan (aliança militar ocidental), com destino à província do Kosovo.
Carina FernandesBandeira brancaAtivista grego: pomba da pazA Grécia é um país estratégico por sua localização geográfica: faz a ligação de toda a Europa com o Oriente Médio e África, por terra e pelo Mar Mediterrâneo. Por essas características, o território grego sempre foi cobiçado durante períodos de guerra. Agora, mais uma vez, o país mais uma vez está no centro dos conflitos.
País-membro da Otan, fazendo fronteira ao norte com Albânia, Escópia (Macedônia) e Bulgária, numa distância de cerca de 150 quilômetros do atual palco de guerra, a Grécia serve de atalho para equipamentos militares utilizados contra os sérvios.
Avaton Foto VerveridisBase militarTanques alemães em Salônica: governo da Grécia apóia OtanAs pesquisas divulgadas por toda a mídia do país indicam: numa população de 10 milhões, mais de 95% dos gregos são contrários aos ataques aéreos à Iugoslávia e à província de Kosovo. Mesmo assim, os bombardeios são defendidos pelo governo grego. Todas as semanas, há em média três protestos. Em cada um deles, multidões de até 200 mil pessoas saem às ruas, gritando pela paz, numa forma de apoio aos sérvios. O engenheiro Dimitris Vergiris, que tem participado de todas manifestações em Atenas, explica:
Carina FernandesMorador de Kilkis contrário à guerra: bombardeios ocorrem a 150 quilômetros- A maioria dos gregos não admira os americanos pelo suporte que eles deram à ditadura em nosso país. No curso da história, nós sempre preferimos lutar do lado dos mais sofredores. Temos grande simpatia pela Iugoslávia, que está perto de nós e que já foi aliada da Grécia em outras guerras. Lá eles também são da religião ortodoxa.
Diante da crise, o governo grego tenta uma posição de equilíbrio entre a Otan e a população, que sempre foi grande aliada dos sérvios por razões políticas, religiosas e culturais.
Avaton Foto VerveridisPraça de guerraPoliciais e manifestantes antibelicistas entram em conflito: população tentou evitar desembarque de tanques de aliança militar ocidental em SalônicaHá outras razões para os protestos da população grega. Segundo os críticos da guerra, a economia do país já teria perdido mais de US$ 1,5 bilhão com turismo, a maior fonte de renda do país, e pelo bloqueio à rota através da Iugoslávia, que dava acesso por terra a toda a Europa. As consequências ecológicas do conflito também já estão sendo observadas. A região norte da Grécia será a mais prejudicada, por estar mais próxima aos ataques aéreos. Rios que vêm da Iugoslávia deverão levar o urânio das bombas até plantações do país. O presidente da Organização dos Trabalhadores do Norte da Grécia, Tsiongas Dimitrios, critica:
á- O urânio utilizado nas bombas da Otan é o mesmo utilizado na Guerra do Irã e Iraque e afetará todos os países balcânicos, causando sérias consequências à população e sobretudo às futuras crianças. Então eu pergunto: a quem a Otan e os EUA estão tentando proteger?
Carina FernandesPraça de pazMoradores de Kilkis, no Norte do País, dançam ao som do tradicional buzuqui: ato pelo fim da guerra mobiliza população de cidade próxima à área de bombardeiosEm várias regiões da Grécia, as ruas se enchem de atos públicos pela paz e faixas críticas ao governo americano, que coordena os ataques. Os EUA já pediram, pela imprensa, que os norte-americanos residentes na Grécia retornem a seu país, e advertem contra o turismo na região durante o período de guerra. Em abril, a Embaixada dos EUA em Atenas foi alvo das pedradas de manifestantes.
Os portos de Atenas e de Salônica (a capital da antiga Macedônia) são os maiores palcos de manifestações. A chegada de tanques enviados pelo exército alemão, em abril, foi motivo de um dos maiores conflitos entre a polícia e os manifestantes no porto de Salônica. Milhares de pessoas tentaram impedir o desembarque dos tanques, o que acabou em pancadaria.
A partida dos primeiros navios gregos em suporte à Otan gerou grande protesto na Ilha de Salamina, perto de Atenas. Na última semana de abril, os gregos do norte decidiram ir para a fronteira com a Escópia, onde realizou-se um concerto musical, bloqueando o transporte. Eram jovens e velhos, de todas a idades, que ao som do buzuqui (tradicional instrumento grego) relembravam a antiga tradição, dançando e aspirando à paz.
Através da história, os gregos sempre vivenciaram a guerra e enfrentaram períodos sangrentos: sob o império de Alexandre Magno, sob a invasão dos turcos e durantes as duas Guerras Mundiais. Por isso, os gregos dizem conhecer bem as dolorosas consequências dos conflitos bélicos. O artista plástico Adonis Tsholakidis, 59 anos, garante:
- Somos conscientes de tudo que uma guerra pode trazer e temos grande capacidade de resistência. Seremos os últimos a aceitar o poderio americano. E não podemos esquecer que aqui está o berço da democracia.
Adonis nasceu em Kilkis, que fica 650 quilômetros ao norte de Atenas. Trata-se de uma das localidades mais próximas da região de conflito, e certamente já afetada pelas consequências da guerra.
Segundo Adonis, a rotina dos moradores de Kilkis e região está marcada pela tensão do conflito militar. Muitos gregos vêem a possibilidade de uma Terceira Guerra Mundial. Adonis lembra: A Primeira e Segunda Guerras começaram com conflitos na mesma região.
Nos dois últimos meses, as rodovias da região de Kilkis têm sido constantemente utilizadas pelos tanques da Otan, que atravessam pela Macedônia ou a Albânia até a Província de Kosovo. A comunidade local já parou caminhões da Otan atirando pedras. Isso já estava acontecendo um mês antes da guerra, conta o artista.
Além dos protestos por todo o país, muitos gregos estão indo para a Iugoslávia como voluntários de auxílio humanitário à Sérvia. O líder de trabalhadores Tsiongas Dimitrios conta que cerca de 300 gregos vivem atualmente em Belgrado, trabalhando como voluntários, sem contar com os ônibus que têm saído a cada semana. Na Grécia, segundo ele, os trabalhadores estão empenhados na coleta de sangue, comida e dinheiro, enviados para a assistência aos sérvios.
Tsiongas está de malas prontas e quer embarcar para Belgrado no final de maio. Sairá um ônibus com 40 pessoas, que passarão dois dias no local do conflito, reforçando a corrente humana realizada em vários lugares da cidade de Belgrado com o objetivo de proteção a certas áreas civis. Tsiongas Dimitrios declara:
- Vamos até lá para dar um suporte aos sérvios e mostrar a eles que estamos a seu lado nesta batalha de poder.Avaton Foto VerveridisIndignaçãoManifestantes em Salônica: gregos mantém identidade cultural com os sérvios e organizam ajuda humanitária às vítimas de ataques aéreosCarina Fernandes
Especial para a Folha





