Benefício resgata moradores de rua
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terça-feira, 12 de maio de 2009
Mariana Guerin<br>Reportagem Local 
A gente não fez maldade para ninguém, só para a gente mesmo. A sabedoria de André Miranda, 65 anos, retrata o período mais triste da vida dele, quando abandonou a família em Londrina para viajar pelas estradas de São Paulo e Minas Gerais, onde viveu até retornar ao Paraná, há três anos.
Ex-morador de rua, Miranda conta que a morte da mãe o motivou a andar por aí. Fiquei só e resolvi viajar. Aí veio a bebida, lembra. De volta a Londrina depois de cinco anos de estrada, ele foi resgatado por orientadores do Sinal Verde e ganhou a chance de mudar de vida. Hoje, aposentado por idade, ele faz parte de um grupo de ex-moradores de rua que trabalha na manufatura de cartões, agendas e blocos feitos a partir de papel reciclado. Estava tudo errado, mas tive ajuda e soube aproveitar a oportunidade.
Como Miranda, diariamente, dezenas de adultos em situação de rua são abordados e até resgatados por educadores sociais do Centro de Referência Especializado de Assistência Social
(Creas I), o popular Sinal Verde. Além de encaminhamento para abrigos e atendimento psicológico, estas pessoas têm na Bolsa Morador de Rua o auxílio financeiro para iniciar uma vida independente.
Segundo a coordenadora do Creas, Adriana da Cruz Barrozo, 70 andarilhos são beneficiados pela bolsa de R$ 100, que é mantida pelo Município. Trabalhamos com uma contrapartida. Para receber o benefício, a pessoa tem que passar por atendimento feito por uma equipe multidisciplinar, formada por assistente social, psicólogo e terapeuta ocupacional, explica.
Para ter acesso à bolsa, é preciso ter mais de 18 anos, ser de Londrina e desejar a recuperação. Também é preciso reunir a documentação necessária para abrir a conta corrente onde será depositado o recurso, completa Adriana, confessando que o tempo que demora para as pessoas reunirem os documentos é o mesmo para aderir aos programas sociais. Com o benefício, aumentaram as adesões aos abrigos e diminuíram as recaídas e o tempo de internação psiquiátrica dos usuários.
Há dois anos inserido no projeto de inclusão produtiva do Creas, André Miranda se considera feliz. Parei de beber no segundo turno das últimas eleições, relembra o aposentado, que ficou internado no abrigo Bom Samaritano, em Londrina, por duas vezes até conseguir mudar-se para a casa da irmã, onde hoje paga aluguel, luz e água com o dinheiro da aposentadoria. E o primeiro passo para a independência foi receber a Bolsa Morador de Rua.
O que passou, passou. Não sou perfeito, mas consegui largar algo que estava me fazendo mal. Se consegui aguentar até agora é porque Deus tem algum plano para mim.
Companheiro de Miranda na produção de artigos feitos com papel reciclado, Adércio Alves, 50, já foi pedreiro antes de perder tudo e viver na rua por mais de um ano. Me separei, vendi a casa e dei metade do dinheiro para minha mulher. Ela se deu bem, mas o aluguel comeu todo o meu dinheiro, daí fui morar na rua, recorda o ex-andarilho, cujos três filhos já estão casados e moram na Zona Oeste.
Há dois anos ele vive no abrigo Bom Samaritano, pois ainda não recebe os recursos da Bolsa Morador de Rua. Mas assim que começar a ganhar os R$ 100, vai alugar um quarto. Minha vida mudou da água para o vinho. Passava fome, tomava chuva, o banho era no Igapó, onde eu também lavava minhas roupas, confessa Alves, que quer encontrar um emprego no qual possa conciliar o trabalho com o papel reciclado. Vivi no inferno, hoje estou no céu, resume.


