Benedita Rezende Camargo tem 63 anos, sete filhas, 15 netos e, desde a infância, um sonho: reencontrar suas origens.
A família de Benedita vai muito bem, obrigado. Casada em segundas núpcias com José Francisco das Chagas, ela é querida pelas filhas. Só recebe elogios pela dedicação e carinho que reservou à educação das meninas, hoje crescidas. Depois de trabalhar na lavoura por anos a fio, Benedita é dona-de-casa em Ortigueira (Norte do Estado). Adora os netos e estampa o orgulho pela família nas fotos espalhadas pelas paredes de casa.
Mas há uma parte dessa família que se perdeu: a parte do passado. Separada da mãe e dos irmãos aos 9 anos de idade, Benedita nunca mais os viu. ‘‘Ela tem muita saúde, mas não quer morrer antes de reencontrar a família’’, diz a filha mais nova, Neuza Pereira Camargo, que mora em Curiúva (Norte). ‘‘Se há irmãos ou sobrinhos, conhecê-los seria o melhor presente de Dia das Mães para ela’’, acrescenta a filha.
César Augusto‘‘Fui criada com gente estranha’’, desabafa dona BeneditaA dona da casa saiu para ir ao açougue, mas volta logo. Enquanto ela não chega, José Francisco das Chagas, que estava carpindo mato em um terreno ao lado da casa, conta que a esposa fala sempre em localizar os irmãos. ‘‘Da família ‘para frente’ está tudo muito bom, as filhas estão criadas. Da família ‘para trás’ não tem nada. Ela quer achar alguém’’, comenta José Francisco. As filhas mais velhas, relata Neuza, tentaram ajudá-la e estiveram em alguns fóruns da região. Mas a falta de documentos impediu qualquer avanço.
A casa de Benedita Rezende Camargo fica na entrada de Ortigueira. (A família também tem um sítio no município.) Na garagem, uma Brasília verde. À direita, uma portinha de entrada e a sala com estante, televisão, sofá e duas poltronas. Na parede, várias fotos emolduradas: as filhas em diversas fases da vida, desde a primeira infância até a maturidade, passando pela foto da caçula, Neuza, no grupo escolar, com uniforme, mapa do Paraná e caderno. Há também imagens dos netos adolescentes abraçando a avó. E um singelo prêmio dado em 1986 pela filha Dalva Pereira Camargo Terezio: Diploma de Mãe Maravilhosa.
Benedita chega trazendo a carne para o almoço. A conversa começa na mesa da cozinha. A mãe de sete filhas vasculha a memória para contar sua história. Ela relembra:
- A gente morava em uma fazenda de Assaí, onde faziam pinga, rapadura e açúcar. Meu pai se chamava Herculano. A mãe, Maria Ana de Jesus. Comigo, eram sete irmãos. Eu estava com 9 anos. Tinha a Lázara, a mais velha, com uns 18 anos. Além dela, lembro da Maria, do Luiz, do Antônio (que morreu menino), do João (esse era mais novo que eu). Também tinha a Aparecida, com uns 3 anos. O apelido dela era Bilinha.
O drama começou quando o pai de Benedita morreu. Com a perda, a família passou por dificuldades. Certo dia, um casal de agricultores levou a garota de 9 anos ‘‘para criar’’ em fazendas de Assaí e depois Apucarana (Norte). Benedita só veria a mãe mais uma vez, meses depois da adoção, e mesmo assim rapidamente. ‘‘O casal que me criou não queria que eu fizesse mais contato com minha mãe e meus irmãos. Um tio tentou me pegar de volta mas eles (os pais adotivos) não deixaram’’.
Benedita não guarda boas recordações do período em que viveu com os pais adotivos - entre 9 e 17 anos. Pelo relato de Benedita, a adoção no caso dela não foi bem-sucedida. ‘‘Fui criada com gente estranha, não recebia muito carinho, não tive privilégio’’, diz. Ela teve que trabalhar muito na roça e cuidar dos filhos do casal que nasceram depois da adoção. Sem muitos laços afetivos com a família que a manteve, Benedita se casou aos 17 anos com Aparício Pereira Camargo, com quem teria as sete filhas. Desde o primeiro casamento, perdeu totalmente o contato com os pais e irmãos adotivos.
A infância foi sofrida, mas Benedita tornou-se uma pessoa alegre, garante a filha Neuza Camargo. ‘‘Depois de tudo, ela não perdeu a alegria de viver. Como mãe, procurou passar para a gente tudo aquilo que não recebeu: carinho, atenção, proteção’’, conta.
Neuza Pereira ressalta que Benedita jamais bateu nas filhas. A mãe confirma que seu estilo nunca foi agressivo: ‘‘Sou mais de conversar, aconselhar. Acho importante dar estudo e não apurar muito os filhos de serviço’’. Benedita não pôde frequentar a escola na infância e na adolescência. Hoje, ela tenta recuperar o tempo perdido e cursa supletivo. Sempre mantém contato com as filhas que moravam em outra cidades: seis em Osasco (SP), uma em Itapevi (SP), outra em Sorocaba (SP) e Neuza em Curiúva. É raro unir as sete filhas numa só ocasião - a última vez foi há um ano - mas os contatos por telefone e visitas são constantes. ‘‘Ela é muito atenciosa e até hoje trata a gente um pouco como criança’’, afirma Neuza. Nos domingos, sempre há o tradicional macarrão com frango.
Na procura pelos familiares que não vê desde os 9 anos, Benedita tem algumas pistas: o sobrenome Rezende, segundo ela, pode ter vindo dos avós paternos, mas ela não tem certeza. Desconfia, no entanto, que os parentes podem estar no Norte do Paraná, mais precisamente na região de Primeiro de Maio, onde seus avós moraram.
A lembrança mais forte é a da mãe - Maria Ana de Jesus. Era uma mulher simples e enérgica. Talvez tivesse origens italianas ou espanholas, e ficava brava quando a criançada resolvia aprontar alguma arte. ‘‘Ela corrigia muito os filhos, ralhava quando os filhos iam daninhar na água’’, recorda Benedita. Ela reconhece ser bastante difícil que Maria Ana esteja viva. Mas, caso a mãe já tenha morrido, o encontro com algum irmão ou irmã já seria um grande presente para Benedita. Segundo ela, Maria Ana tinha traços que lembravam Neuza e Alaíde, outra de suas filhas. Até hoje, de vez em quando, Benedita se lembra da curta visita que Maria Ana de Jesus lhe fez, depois da adoção. Ela sempre conta esse episódio às filhas. Naquele dia, há mais de cinco décadas, Maria Ana colocou a pequena Benedita no colo e perguntou se ela estava bem. Logo depois teve que ir embora.
Benedita Rezende Camargo espera há 54 anos. Mas acredita que esse Dia das Mães pode ser o ponto de partida para reencontrar uma parte importante da sua vida. Um passado distante, que não se perdeu na memória e nas histórias que ela conta para as sete filhas.
Enquanto ninguém chega, Benedita se despede e vai preparar o almoço, que está quase na hora.

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