Bendita chuva
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terça-feira, 02 de abril de 2002
Walter Ogama 
Londrina Quinze horas e quinze minutos, pouco mais, pouco menos. Choveu no outono quente de Londrina uma chuva grossa, que atravessou o sol tímido da terça-feira e molhou o asfalto sujo. Tempo antes, lá pela hora do almoço, nuvens carregadas prenunciavam água. Será que ela vem? Era a pergunta que algumas pessoas se faziam, olhando desconfiadas para o céu.
Com o sol descendo à altura da cabeça, como dizem nas conversas de rua, chuva era uma dádiva. Mas não foi esperando por ela que a dona de casa saiu logo após o almoço, de sombrinha armada. Foi para ter a boa ilusão de estar protegida do calor que a mulher empunhou a armação de ferro coberta de pano florido. E se esqueceu que o sol quando bate na pele arde, por isso sombrinha traz alívio, mas o que provoca calor é o mormaço. E o de terça estava insuportável, até a chuva.
Foram poucos minutos, ninguém marcou no relógio. Nem 10, provavelmente. Rápida ela se foi e levou também o sol fraco e o calor. Como se fosse um remédio de efeito imediato, causou alívio. Quase não deu tempo da mulher ostentar com orgulho o fruto de sua mania de ser prevenida. Se tiver sol, sombrinha protege do calor. Se chover, sombrinha protege da água, costumava dizer.
Mas ela passou sob marquizes, onde trabalhadores, já meio atrasados, esperavam a pancada de água acalmar. Que chover, era quase consenso, todo mundo queria que continuasse. Mas alguns rezavam para a chuva afinar, de modo a ter como correr até o serviço. Depois, dentro do escritório, pode desabar que é bem vinda, comentou o escriturário.
E seguiu a mulher, orgulhosa com a sua sombrinha. Por uma rua suja, que infelizmente Londrina escancara nestes dias de estiagem. Uma sandália de pouco uso protegia seus pés, mas não evitou que respingos encardidos manchassem as barras da calça clara.
E ela pensou que a chuva poderia assentar a poeira das ruas e lavar as calçadas, já que se a alguém cabia este papel, este alguém deixava de cumprí-lo. A chuva foi embora, rápida como veio, nem deixando cheiro de chuva no ar. A mulher, sombrinha desarmada, seguiu por uma rua esburacada, bainha da calça manchada.


