Natal de Souza, 43 anos, chegou a Curitiba há três anos para acompanhar a mulher, que precisava de tratamento médico. Vindos de Joaquim Távora (53 km ao sul de Jacarezinho), ele deixou o emprego de vigilante em um posto de gasolina para trabalhar, das 16 às 22 horas, em frente ao Hospital Evangélico, cuidando de carros.
A mulher, Luciana Neves, 34, já terminou o tratamento, mas o casal, com cinco filhos de idades entre 3 meses e 16 anos, decidiu continuar na Capital. "Aqui é bom de viver." Eles trabalham juntos, no mesmo "ponto". Segundo Souza, os ganhos diários entre R$ 30 e R$ 35 são suficientes para sustentar a família, que mora em uma casa própria em Almirante Tamandaré, na Região Metropolitana de Curitiba.
Os guardadores de carros, chamados também de "flanelinhas", estão por toda a cidade. Alguns são revendedores do EstaR -o estacionamento regulamentado pela prefeitura-, outros são conhecidos pela frase "bem cuidado aí, tio?". Também existem aqueles que colocam preço fixo no ponto e chegam a cobrar antecipado, principalmente em eventos como shows de música e jogos de futebol.
Mas eles nem sempre são bem aceitos pelas pessoas. A professora Elza Jungles, 56, critica o fato de haver guardadores de carros até em locais onde o estacionamento é pago. "Já pagamos tantos impostos para garantir nossa segurança, é um absurdo ainda termos que gastar nosso dinheiro com isso", desabafa. Ela diz que costuma pagar o "serviço" por medo de encontrar o veículo danificado na volta.
O corretor de imóveis Nelson Pasquini, 76, conta que já encontrou o carro arrombado após ter "deixado sob os cuidados" de um flanelinha. "Quando eu voltei, ele tinha desaparecido. Ultimamente, tenho preferido andar de ônibus. Mas não tenho nada contra os guardadores", afirma.
Ganhador da confiança dos motoristas é Carlos Alberto Cheiski, 63. Com ponto fixo na Rua Voluntários da Pátria há cerca de 40 anos, o vendedor de cartões do EstaR conta que alguns clientes deixam a chave do carro sob responsabilidade dele. "Eles pedem para eu renovar o cartão se demoram mais de uma hora ou até para trocar o carro de lugar se passar da segunda hora. Outros deixam aberto mesmo", conta.
As dez horas de trabalho por dia compensam. Cheiski tem uma casa própria em Colombo, na RMC, e criou quatro filhos com o dinheiro do lucro de 100% na venda do cartão. "Quando era jovem, por causa do pouco estudo, eu não conseguia emprego. Aí achei aqui. No começo, eu cuidava e lavava os carros. Depois passou a ter o EstaR, então agora eu só vendo. Às vezes, mesmo com o agente da Diretran ali, eles preferem comprar de mim", comenta.
Pelas contas de Osmar Pinto, 77, o "Baiano", já são 56 anos olhando os veículos estacionados na Rua Cândido de Abreu, em frente à Assembleia Legislativa. Militar aposentado, o trabalho nas ruas começou como complementação de renda no contraturno. Segundo ele, na década de 70, recebeu um convite de Anibal Khury, então deputado estadual, para olhar os carros estacionados em frente aos prédios do governo.
As doze horas diárias quase nunca são interrompidas. "Fiquei só seis dias em casa entre os feriados de Natal e de Ano Novo", diz Baiano. Na casa própria, na Vila Guaíra, criou os filhos e agora ajuda os três netos que moram com ele. Mesmo com o dinheiro proveniente da aposentadoria, ele diz que não dá para parar o serviço nas ruas. "Sou o único que trabalha".

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