Dorico da SilvaBelinati com Aparecida no colo: ela pediu uma boneca

A família de Eva Maria da Cruz acordou mais cedo na quinta-feira. Às 4h45 já estavam de pé Eva, a filha de 9 meses, o filho de 10 anos, a irmã Maria Regina, a sobrinha e o marido da sobrinha. O motivo era importante: pedir uma casa para o prefeito. Todos eles moram ‘‘de favor’’ numa casa no jardim Ideal (zona leste) que precisa ser desocupada em breve. A família aproveitou o expediente que ia começar mais cedo na Prefeitura de Londrina para falar com o prefeito Antonio Belinati (PDT). Ele abriu seu gabinete às 5h30 para atender a população. Foram servidos pãezinhos com manteiga e café.
‘‘A necessidade obriga a gente a acordar tão cedo’’, diz Eva. Eles pegaram carona com um caminhão do mercadão popular do jardim Ideal. Segundo ela, ‘‘só Deus sabe o que estão passando por não ter uma moradia’’. Eva é ajudante de cozinheira e a irmã trabalha como diarista. O caso foi encaminhado para a Cohab.
- O senhor tá lembrado de mim? É o mesmo problema... - Confiando na boa memória do prefeito, a diarista Eleni de Oliveira engatilhou o assunto dando continuidade a uma conversa que tivera com o prefeito na casa dele. Era um pedido de empréstimo. O prefeito não titubeou. Respondeu que havia telefonado ao banco para saber das condições de empréstimo. ‘‘O problema é que a senhora tem que comprovar como pode pagar isso. Hoje no Brasil ninguém mais concede empréstimo a longo prazo.’’
O prefeito pediu a uma secretária que anotasse o nome da mulher. Prometeu que conversaria novamente com o gerente. Em seguida, atendeu a outra mulher, chamada Elizabeth. Desta vez, a mulher relatou que, depois de três anos trabalhando na área da saúde, havia sido dispensada. Sozinha, com três filhas para criar, ela tinha que pagar o IPTU em atraso até domingo (hoje) sob pena de não conseguir a renovação do seu contrato de aluguel. Nos olhos, havia um sinal de conjuntivite.
Belinati pediu a uma assessora que chamasse o secretário de Saúde para examinar os olhos de Elizabeth. ‘‘Se eu der isenção do IPTU, na verdade quem vai se beneficiar é o proprietário do imóvel’’, explica à mulher. Troca algumas palavras com o secretário de Negócios Jurídicos e fala que existe a possibilidade de parcelar o pagamento do imposto em 18 vezes. Pede para o secretário encaminhar o caso de Elizabeth.
A vendedora Ireneide França de Lima acordou às 5 horas e foi pedir duas vagas na Supercreche para seus filhos de 2 e 4 anos. Ela aguardava a vez. ‘‘Tem mais de 700 crianças na fila esperando uma vaga na Supercreche. Vamos ver se vou conseguir.’’ Cleonice da Silva, de 66 anos, foi pedir a legalização de um terreno onde mora no jardim Santa Rita. ‘‘Estou lá há 20 anos mas não tenho a posse. O terreno é da Prefeitura. Quero ver se o prefeito legaliza’’, conta Cleonice. Ela mora com o marido doente e aposentado e um filho desempregado.
Com 68 anos, Cláudio Segantine disse que está acostumado a acordar cedo. ‘‘Vim ontem (quarta) aqui e falaram para voltar hoje de manh㒒. Ele disse ao prefeito que o IPTU está atrasado. ‘‘O imposto de 95 estou pagando parcelado, mas queria uma isenção ou um desconto’’, fala. A casa em que mora, na zona norte, pertence ao genro. ‘‘Minha aposentadoria é muito baixa. Trabalhava num posto que fechou e estou sem dinheiro’’. Ele foi encaminhado com um bilhete para a Secretaria da Fazenda.
Cerca de 300 pessoas foram ao gabinete na manhã de quinta-feira. Entre elas, pelo menos metade eram moradores de favelas que se reuniram com o presidente da Cohab. As outras 150 foram atendidas uma a uma pessoalmente pelo prefeito. Foram muitos os pedidos e encaminhamentos para secretários e assessores.
Belinati também recebeu algumas cartas com manifestação de carinho. Ele contou que uma senhora acordou cedo apenas para entregar-lhe uma carta dizendo que reza muito por ele. ‘‘Ela veio só para trazer a carta’’, gabou-se prefeito. Ele também ouviu o recado de um garoto de 7 anos, que mora no conjunto Parigot de Souza (zona norte) e quer ir à Prefeitura para sentar-se no colo do prefeito. Ele mandou um bilhete para o menino por meio da vizinha dele.
Maria Aparecida Caçador Sodré, de 5 anos, acordou às 5 horas e chamou sua mãe, a doméstica Neide Maria da Silva Caçador, para ir à Prefeitura. Elas moram no Jardim União da Vitória 2 (zona sul). Neide conta que a filha tem ‘‘adoração’’ por Belinati. A menina pediu uma boneca ao prefeito. Ele disse que vai comprar o presente com seu próprio dinheiro. A mãe quer que o prefeito libere a construção de casas no conjunto Parati 2 antes do asfalto. ‘‘A Prefeitura não deixa a gente construir enquanto não tiver asfalto. Mas eu tenho que sair da casa onde moro e preciso construir no terreno onde comprei a casa’’.
Belinati escuta com atenção todos os pedidos. Muita gente ouviu um ‘‘não’’ como resposta. Principalmente quando o pedido era casa pra morar. Belinati diz que sua intenção não é iludir ninguém. ‘‘Se der para atender, eu atendo. Se não, falo com clareza. Não quero criar falsa expectativa em ninguém. Nossa força é pequena e limitada.’’
Belinati explica sua atitude de ‘‘abrir as portas ao povo’’ dizendo que a população deseja receber carinho da autoridade. ‘‘Muitas vezes usando de franqueza e explicando porque não posso atender o pedido, a pessoa fica satisfeita por ter sido recebida pelo prefeito.’’ O que o povo não admite - explica - é barreira com o prefeito. ‘‘Na campanha, você vai na vila, fala com a população e depois de eleito não pode deixar de receber os moradores.’’ Segundo Belinati, as pessoas querem falar diretamente com ele, sem intermediação. ‘‘Depois, você até pode encaminhar para o departamento adequado, mas a população quer falar com você, prefeito’’.
Belinati diz que trabalha assim há 19 anos. ‘‘Desde o meu primeiro mandato, recebo as pessoas no meu gabinete. Nesta campanha eleitoral, ouvi gente dizer que a única vez que entrou no gabinete do prefeito foi no meu mandato.’’
Para Belinati, toda autoridade tem o dever de atender a população. ‘‘O povo não tem acesso ao presidente da República, aos secretários, governadores e aos prefeitos de boa parte dos municípios. Essas pessoas chegam ao poder e se trancam nos gabinetes’’. E cita Getúlio Vargas: ‘‘Getúlio reservava um dia por semana para atender o favelado, que chegava de dedão de fora. Ele atendia o povo.’’
‘‘Aqui cai todo tipo de problema. Muitas vezes, até problemas pessoais. Mas indiretamente o problema da vida da pessoa está afeto ao prefeito, já que ele é o comandante da comunidade.’’ A saída nesse caso - segundo ele - é dosar o tempo de atendimento direto à população e dos problemas coletivos. ‘‘A cabeça tem que estar ligada nos projetos para a Cidade de Londrina. Nenhum setor pode receber sozinho a nossa atenção. Todos merecem atenção.’’
Outra vantagem do atendimento direto, de acordo com Belinati, é que serve como instrumento de fiscalização do prefeito e de sua administração. ‘‘Às vezes você determina a realização de uma obra e se ela ficar chaveada você só vai saber na próxima campanha. No contato direto com o povo você sabe se suas ordens são cumpridas ou engavetadas.’’
De partido de tradição trabalhista, Belinati reza na cartilha populista. Luta para se encaixar sempre no perfil de ‘‘pai dos pobres’’, que caracterizou Getúlio Vargas. ‘‘Para os pobres, ele é um Deus’’, disse quinta-feira Elenice Pereira Evangelista, moradora do Conjunto Jamile Dequech, que fica a cinco quilômetros do centro da Cidade. O Jamile Dequech foi construído na segunda gestão de Belinati. Uma comissão de inquérito instalada pela Câmara Municipal no início da administração anterior concluiu que houve superfaturamento na venda dos terrenos da Cohab para os mutuários. Com essa conclusão, os mutuários passaram a ter desconto no valor da prestação.

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