Curitiba - Três locomotivas, 31 vagões carregados com farelo de soja e grãos de soja. Esse foi o trem que levou a reportagem da Folha, no dia 13 de dezembro do ano passado, por 59 quilômetros na ferrovia que liga Curitiba ao Litoral - trecho famoso pela sua beleza e também pelo seu perigo. Durante todo o trajeto, a reportagem esteve acompanhada por assessora da América Latina Logística (ALL), concessionária das ferrovias do Paraná, desde a privatização da Rede Ferroviária Federal (RFFSA), em 1996, pelo prazo de 30 anos.
A curta viagem foi a oportunidade de João Carlos da Silva, de 40 anos e há 17 na profissão de maquinista (11 deles somente no trecho da Serra do Mar), contar sobre sua profissão e também mostrar a paisagem, que ele já conhece melhor do que qualquer guia turístico.
Silva começou a viagem contando, com orgulho, que não são todos os maquinistas que podem descer a Serra. ''Todos os maquinistas da Serra são do tempo da RFFSA porque tem que ter experiência. É muita descida, tem que conhecer bem o caminho'', conta. O maquinista também se orgulha de nunca ter se envolvido em nenhum acidente grave. ''No máximo arranquei pára-choques de carros que não pararam a tempo no cruzamento. Uma vez uma mulher empacou seu carro em cima da linha de medo, mas o passageiro foi calmo e tirou a tempo. Foi um susto'', lembra.
O maquinista prosseguiu contando do trem e do perigo do trecho. ''A gente está com mais duas locomotivas, que vão ajudar a subir daqui a pouco.'' As locomotivas traseiras não têm maquinistas e Silva defende que realmente não precisa. Ele ligou as locomotivas quando chegou na região de Piraquara (RMC), porque começa uma subida. Aí já começamos a enxergar a história da ferrovia. Casas usadas por antigos funcionários da RFFSA se mantêm na beira dos trilhos, hoje fechadas ou alugadas. ''O passeio é bonito, não enjoa. A gente sempre vê alguma coisa nova'', afirmou Silva, quando questionado se não é entediante fazer o mesmo trecho todos os dias.
Maquinista não tem hora para trabalhar. Silva conta que eles trabalham por escala e cada dia da semana entram em um horário, inclusive à noite e de madrugada. De vez em quando, Silva guia também o trem de passageiros. ''Eu prefiro. É bem mais leve.'' Cada vagão-carga carregado tem 80 toneladas e o de passageiros, 30 toneladas. Ao passar por um trecho onde se podia sentir um cheiro muito ruim, Silva imediatamente explicou: ''Isso é soja que cai dos vagões e apodrece. Fica um cheiro muito ruim.'' Segundo ele, acontece de vândalos que andam pela região abrirem vagões e derramarem os grãos.
Durante a viagem, Silva foi apontando alguns dos pontos turísticos. Ele, por diversas vezes, chamou a atenção da reportagem para os trechos mais bonitos. Silva parou o trem na estação abandonada do Véu da Noiva. Era para dar passagem para outra composição. Logo depois passou pela ponte São João, que teve um pedaço destruído por um acidente. ''Eu fui o primeiro a passar aqui, com os vagões vazios, depois do conserto. Não senti medo.'' Logo depois, Silva parou novamente e trocou de trem com um companheiro para voltar para Curitiba. Se passaram três horas de viagem só de ida.
Na volta, Silva pegou um trem com 40 vagões vazios. Ele acha que seu filho, Carlos Eduardo, de um ano e sete meses, vai gostar um dia da profissão. ''Acho que ele vai se interessar'', prevê. Para o maquinista, sua vida não é solitária. ''A gente vai encontrando o pessoal na beira dos trilhos e bate um papinho.'' Na ida, Silva já tinha avisado quando passamos por um trecho logo depois de Curitiba: ''Fechem a janela que aqui os moleques jogam pedras. Já levei duas pedradas e não foi nada bom.'' Dito e feito. Na volta, uma pedra assustou todos os marinheiros de primeira viagem. ''Eu não disse?''
Depois de mais três horas de viagem de volta, sete de trabalho, Silva vai finalmente dirigir 12 quilômetros para sua casa no bairro Vila Oficinas em Curitiba para almoçar (às 16h30). ''Não gosto de comer antes e nem durante o percurso porque me dá sono'', justifica.

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