Bela Vista dá bolsa-escola para comerciantes
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 03 de outubro de 2001
Telma Elorza<br> De Londrina 
O Programa Bolsa-Escola, instituído pelo governo federal para ajudar famílias carentes a manter os filhos na escola, está sofrendo distorções em Bela Vista do Paraíso (40 km a norte de Londrina). Pessoas com renda familiar acima do limite estabelecido pelo governo recebem o benefício em detrimento dos necessitados. Entre os beneficiados estão professores da rede estadual, um policial e vários comerciantes. O Bolsa-Escola federal paga R$ 15,00 mensais para cada criança entre 6 e 15 anos cadastrada que estiver estudando. O máximo é de três pessoas por família.
No centro da cidade, várias pessoas confirmaram à Folha que pessoas que não necessitariam do dinheiro começaram a recebê-lo na semana passada. ''Eu achei um absurdo. Quem precisa ficou de fora. É uma vergonha porque tira dinheiro de quem não tem nem o que comer'', afirmou uma comerciante que pediu para não ser identificada. ''Tem gente com comércio estabelecido também recebendo'', declarou.
Um outro comerciante, que também pediu para não ser identificado, relatou que todos na cidade ficaram sabendo do pagamento a pessoas não necessitadas porque a prefeitura convocou os contemplados para repassar o dinheiro em um único dia, no ginásio de esportes da cidade. ''Na fila, a gente viu pessoas de bom poder aquisitivo'', contou.
Segundo Marlene Fabrin Rabello, diretora da Escola Municipal Professora Cléria Maria de Oliveira Albuquerque - que atende aos conjuntos habitacionais Rosa Luppi e Santa Terezinha, todos os 233 alunos foram cadastrados no programa, mas apenas 20 receberam a bolsa. ''Quase a totalidade é extremamente carente e esse dinheiro ajudaria muito, inclusive na frequência às aulas'', disse. ''Ficamos sabendo que outra escola, no distrito de Santa Margarida, também recebeu somente 30 bolsas. É pouco, porque a região é muito carente'', disse.
A bóia-fria Zeli da Cunha Loio, 23 anos, ressaltou que as mães que não receberam o benefício estão revoltadas. Ela mora no conjunto Rosa Luppi, um dos mais carentes de Bela Vista. ''Todo mundo aqui precisa do dinheiro, mas poucos conseguiram. Na cidade tem gente que não precisava e está recebendo'', afirmou. Ela, o marido e os filhos de 4, 6 e 8 anos sobrevivem com cerca de R$ 60,00 por semana.
A dona de casa Maria da Silva Ramos, 49 anos, também inscreveu os filhos menores, com 11 e 8 anos, mas não foi escolhida. Ela mantém a família com dificuldade. ''É só por Deus que a gente vive'', disse.


