Adoecer por causas emocionais não é uma realidade restrita ao mundo adulto. Estudos recentes vêm mostrando que também os bebês (de zero a três anos) são vítimas da somatização, que pode se manifestar de diversas maneiras. Até a corriqueira cólica - todas as futuras mães esperam, resignadas, passar por noites em claro sem saber o que fazer com o choro do filho - pode ser nada mais que a resposta do bebê a uma situação do ambiente não confortável a ele.
Para falar sobre a Psicossomática do Bebê, o psicólogo e pediatra Wagner Ran¤a esteve em Londrina no último final de semana, a convite da Associação Médica local. A promoção foi do Departamento de Pediatria e Cirurgia Pediátrica da entidade.
‘‘Os distúrbios dos bebês não só têm origem alérgica ou infecciosa mas também uma participação importante de problemas na área da organização psíquica da criança e das características de suas relações com os outros’’, comenta Wagner Ran¤a. Entre os distúrbios citados por ele estão cólica, insônia, vômitos, falta de apetite, asma e até patologias mais graves, como as infecções recorrentes. Em outras palavras, se há algo de errado na relação do bebê com as pessoas próximas a ele ou ao ambiente em que vive, provavelmente ele irá adoecer.
Ran¤a observa que um dos quadros psicossomáticos mais graves é o decorrente do abandono, do desaparecimento da pessoa mais próxima ao bebê, com a qual ele havia constituído vínculo - morte da mãe ou do pai, separação de casais com afastamento brusco de um dos pais e até o desaparecimento da babá. ‘‘Essas situações pode levar a criança a ficar com estrutura depressiva’’, diz. O médico esclarece que o quadro é denominado de depressão branca, por não ser uma depressão melancólica ou a do luto.
‘‘É uma depressão em que a criança não expressa nenhum sinal pela perda do outro, mas surge um repertório de sintomas como a atonia emocional (apatia) e esta criança tende a ficar muito doente.’’ Crianças acometidas por este tipo de depressão necessitam, segundo o médico, restituir vínculos e ser estimuladas. O quadro de depressão branca, lembra Ran¤a, também é observado em filhos criados por pais depressivos.
Mas a somatização também se expressa em distúrbios mais leves. O exemplo clássico é a cólica. ‘‘Durante muito tempo se levantou muitas hipóteses para a cólica, até que se descobriu que ela é resultado de um excesso de excitação após o nascimento. São crianças super investidas, em que a família faz fila para brincar com elas’’, classifica Ran¤a. Segundo ele, 95% dos casos de cólica são decorrentes da excitação.
Uma outra situação citada pelo médico que resulta na somatização é quando os pais ou um deles têm uma estrutura neurótica. Ele cita o exemplo de um bebê de seis meses encaminhado para a clínica onde atende, com refluxo gastroesofágico (regurgitação), gastrite e esofagite (inflamação do esôfago). ‘‘Descobrimos que a mãe era obsessiva e seguia de maneira rígida as orientações que recebia.’’
A mãe, conta o médico, tinha recebido informação de que chupar chupeta ou o dedo era prejudicial para a arcada dentária do bebê. Para impedi-lo de sugar o dedo, ela amarrava suas mãos. O bebê passou, então, a sugar a ponta do travesseiro. A atitude da mãe foi tirar a fronha.
O resultado foi o surgimento de um quadro complicado para uma criança de apenas seis meses e que foi superado após orientação à mãe para que deixasse o filho livre para sugar.‘‘Impedir um bebê de sugar é como tentar impedir um adulto de pensar’’, compara Ran¤a.

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