12 de maio é o aniversário de Gustavo Yamamura, um grande guerreiro que nasceu com pouco mais de um quilo, na 28 semana de gestação. Como todo bebê prematuro ele travou verdadeira luta para viver, mas a história deste caçula de uma família de comerciantes maringaenses não é só isso. Seu nascimento marca um fato inédito na medicina brasileira e talvez mundial. Gustavo foi gerado em uma gestação dupla, e veio ao mundo cinco semanas depois de sua mãe entrar em trabalho de parto e perder o primeiro bebê.
Nas mãos de um médico menos experiente, provavelmente o caso teria tido outro desfecho. O primeiro diagnóstico recebido por Meire Ayumi Komagome Yamamura, de 38 anos, ao chegar à maternidade, foi de que sua gestação teria de ser encerrada ali, diante da impossiblidade de salvar os bebês, na época com menos de 23 semanas de gestação (5,5 meses). O que aconteceria nas próximas horas, porém, iria contrariar tudo o que foi relatado até hoje na literatura médica.
Parto em dois tempos - O médico Carlos Gilberto Almodin, professor orientador da Universidade Federal de São Paulo e um dos mais respeitados pesquisadores na área de reprodução humana, tomou a difícil decisão de levar a gestação adiante e tentar o chamado parto em dois tempos.
Ele explica o que aconteceu no dia 4 de abril, quando Meire entrou em trabalho de parto: ''A bolsa do bebê, que estava por baixo, se rompeu muito precocemente e a probabilidade de sobrevivência desta primeira criança era zero. Como se tratava de uma gestação de 23 semanas (para que o bebê tenha chance de sobrevivência, o mínimo são 28 semanas), o procedimento usual para um caso como este é a interrupção do processo, pelo risco de infecção e coagulação intravascular disseminada, que pode causar hemorragia grave na mãe''.
A primeira medida tomada pelo médico foi, portanto, ministrar um medicamento que deveria induzir as contrações e levar ao nascimento também do segundo bebê. Mas, para surpresa de Almodin e de sua equipe, o organismo de Meire não reagiu. O médico entendeu o 'recado' e resolveu que iria fazer tudo o que estivesse ao seu alcance para salvar aquela criança. ''Comuniquei os pais e eles aceitaram, conscientes de que não se tratava de algo usual.''
Intensos 39 dias - Almodin explica que o cordão umbilical foi cortado o mais próximo possível do útero e a placenta do primeiro bebê mantida, para não romper a outra bolsa. ''Nestes casos o organismo se encarrega de absorvê-la'', informa. Os 39 dias que se seguiram foram intensos para médico, pais e bebê. ''Contrariei a opinião de toda a minha equipe médica. Sabia dos riscos para a mãe, mas em nenhum momento detectei um risco iminente. Se houvesse, obviamente teríamos interrompido a gestação.''
Em sua clínica, no centro de Maringá, Almodin vem operando verdadeiros milagres e desenvolvendo técnicas inimagináveis até alguns anos atrás, como a vitrificação de óvulo, mais simples e menos onerosa do que o congelamento de embriões. O médico refuta a expressão ''milagres'', ciente de que nada no campo da ciência é conquistado sem muita pesquisa e trabalho árduo. No caso de Gustavo, porém, ele prefere não tomar para si algo que acredita ser o resultado de uma força superior. ''O mérito não é meu, e sim de alguém lá de cima que me guiou e quis que tudo acontecesse assim, de forma tão harmoniosa.''
Relação de confiança - A harmonia a que o obstetra se refere é também resultado da relação de confiança que se criou entre médico e família. ''Desde o começo, dizíamos a ele que fizesse o que achasse melhor. E percebemos que a sua dedicação foi muito grande. Às vezes ele chegava no hospital de madrugada para ver a Meire'', conta o pai de Gustavo, Hélio Yamamura. O bebê, que nasceu na véspera do Dia das Mães, foi para casa na véspera do Dia dos Pais, 11 de agosto. De lá para cá foram alguns sustos, muitos exames e inúmeras conquistas. ''Ele nasceu com 1,225 kg, chegou a 1,040 kg e hoje está com 3,300 kg. Atualmente, ele ganha 36 gramas por dia'', orgulha-se a mãe.
Enquanto Gustavo boceja tranquilo no colo dela, Hélio revela as lições que seu caçula, desde antes de vir ao mundo, tem lhe ensinado. ''Tivemos de aprender a viver um dia de cada vez, a dar valor às pequenas coisas e a não nos preocupar tanto com o futuro. Enquanto ele estava na barriga, cada dia que ganhávamos era uma vitória. Depois, comemorávamos cada grama que ele ganhava. Não podemos jamais desprezar o trabalho maravilhoso realizado por toda a equipe médica e pela equipe da UTI da Santa Casa, mas não tem como não acreditar que houve uma intervenção divina'', diz o pai.
Meire, que apesar de todo o estresse conseguiu produzir leite suficiente para amamentar Gustavo e fazer doações para o banco da maternidade, afirma que ainda não pensou se vai tentar engravidar novamente. ''Ele ainda vai precisar de muitos cuidados. Não paramos para pensar nisso.'' Sobre tudo o que passou pelo filho, a comerciante resume em uma frase: ''Valeu muito a pena!''

mockup