Bebê morre vítima de toxoplasmose
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sexta-feira, 10 de janeiro de 2003
Marta MedeirosEquipe da Folha 
Maringá - O bebê Guilherme Gomes Maia, de oito meses, morreu anteontem à noite, vítima de toxoplasmose adquirida pela mãe no surto da doença que atingiu o município de Santa Isabel do Ivaí (92 km de Paranavaí), entre 2001 e o início do ano passado. Guilherme é a primeira vítima fatal do surto e permaneceu internado e respirando por aparelho na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital Universitário de Londrina, desde o seu nascimento, em 21 de abril de 2002.
A doença, provocada por um protozoário e disseminada na água do município, atingiu o cérebro do bebê pela forma congênita (da mãe grávida para o filho) e prejudicou o desenvolvimento da criança. O enterro realizado ontem à tarde comoveu a comunidade de Santa Isabel do Ivaí.
Por causa do surto de toxoplasmose, sete mulheres grávidas, entre elas a mãe de Guilherme, adquiriram a doença, sendo que uma sofreu aborto no início da gestação. Outros cinco bebês continuam em tratamento em razão de problemas causados na visão. A toxoplasmose também provoca lesões oculares.
Uma faixa colocada em frente da capela, onde o bebê foi velado, lembrou o descaso das autoridades públicas desde que o município passou pelo surto, considerado por especialistas na área de saúde, o maior da doença já registrado em todo o mundo. Na faixa estava a frase: ''Lembra-te, ó Pai de todos os que lutam, sofrem e morrem para o nascimento de um mundo mais fraterno e justo, que outros Guilhermes possam ser felizes...''.
Segundo a líder comunitária, Marlene Jacomel, a morte do bebê aumentou a revolta da população, que se sente abandonada pelo poder público. ''As pessoas não se conformam de conviver com uma doença adquirida por causa do descaso do município com a caixa d'água'', disse Marlene.
Conforme Marlene, nos últimos meses, a prefeitura reduziu o custeio das viagens dos pais de Guilherme para Londrina. ''Tanto que a criança morreu sem os pais estarem por perto'', lamentou. Marlene disse também que o atendimento aos infectados no único posto de saúde do município é precário, o que revolta ainda mais a população. ''Nem as fichas dos doentes são informatizadas'', explicou.
Segundo a líder comunitária, os doentes vivem assustados porque não conseguem um acompanhamento constante de médicos e oftalmologistas. ''As pessoas reclamam por exames mais periódicos'', relatou.
Segundo o secretário municipal de Saúde, Hailton Kawabata, o município está preparado para o atendimento dos infectados da toxoplasmose. Ele afirmou que a secretaria tem o cadastro de 425 pessoas com a doença, mas o número pode ser maior em razão dos exames particulares que não foram registrados no órgão público. Conforme Kawabata, os bebês infectados recebem medicamentos e suporte para o transporte até Londrina onde são realizados os tratamentos.


