Bebê índio volta à casa abrigo
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sábado, 16 de fevereiro de 2002
Alexandre Palmar Equipe da Folha 
São Miguel do Iguaçu - O bebê índio rejeitado pela família na Reserva Avá Guarani, de Santa Rosa do Ocoí (Região Oeste), voltou a ter desnutrição aguda. A criança de apenas nove meses retornou a Casa Abrigo de São Miguel do Iguaçu (43 quilômetros a nordeste de Foz do Iguaçu) na semana passada depois de perder quase dois quilos nos dois últimos meses. O mesmo problema aconteceu no ano passado.
O drama de A.P. começou no dia do seu nascimento, em 26 de abril de 2001. Seus problemas de saúde teriam origem nas dificuldades dos pais para manter sete filhos. Outra versão sustenta que ele teria sido renegado por ser gêmeo de outro menino. Os índios têm medo de crianças gêmeas. Algumas tribos consideram um castigo dos deuses, outras sustentam a crença que o espírito é dividido. A família de A.P. teria privilegiado o irmão, seguindo um antigo costume. O fato foi identificado em junho do ano passado, quando o nenê foi recolhido pela primeira vez. A.P., de apenas 45 dias, foi encontrado por um auxiliar de enfermagem da tribo na casa de Cassemiro Tupã Pereira e Tereza Tekua Gonçalves. Enquanto um dos gêmeos estava com aparência saudável, o outro apresentava poucos sinais psicomotores e palidez extrema.
A. passou seis meses sob cuidados da Casa Abrigo, aumentando seu peso de 2,8 quilos para 6,5 quilos, lembra Maria Aparecida da Silva, responsável pela recuperação. Em 24 de dezembro foi encaminhado para família, mas o descuido foi identificado novamente no começo deste mês. O bebê havia perdido quase dois quilos e mal conseguia manter-se sentado, conta Maria.
O quadro crítico resultou numa internação hospitalar de dez dias. Depois de receber alta, o garoto foi levado para a Casa Abrigo na quarta-feira passada. Quando veio para cá, ele mamava até um litro de leite por dia, comenta a senhora de 45 anos. Em sua opinião, o índio precisa de carinho, afinal já sofreu muito para sua idade.
O futuro de A.P. será definido amanhã, quando um representante da Secretaria do Bem-Estar Social e do Conselho Tutelar tentarão convencer os pais a aceitar o filho. Não podemos abrir a adoção para brancos, pois ele cresceria num meio com costumes diferentes de suas raízes, afirma o conselheiro Edilio Diesel, 43, frisando temer preconceito numa eventual mistura de raças.
Este é o segundo caso envolvendo desnutrição de um bebê índio na Reserva Avá Guarani. Em outubro de 2000, um nenê nasceu prematuro e ficou desnutrido devido aos descuidos da mãe, na época com 14 anos. Após receber tratamento na Casa Abrigo, o filho foi levado pela mãe para o Mato Grosso do Sul no final do mesmo ano.


