“Não é terapia, mas é terapêutico”. É assim que cerca de 20 mulheres se aproximando (ou já dentro da) terceira idade se sentem ao trajar seu uniforme e pisar na areia para jogar beach tennis no Veronica Beach Club, na zona sul de Londrina. A grande maioria está aposentada, com os filhos longe de casa, e encontraram uma segunda família que incentiva a atividade física e a camaradagem.

O grupo “Divas” existe há dois anos, com a maior parte das integrantes na faixa dos 60 anos de idade - a mais nova tem 56 e a mais velha, 73. Além do esporte que mistura o tênis, vôlei de praia e badminton, as companheiras se reúnem para jogar baralho, promovem confraternizações e planejam uma programação futura de artesanato e bingo.

Antes das partidas, as Divas jogam baralho e conversam
Antes das partidas, as Divas jogam baralho e conversam | Foto: Heloísa Gonçalves

Uma das pioneiras do grupo, Dirce Fujisawa tem 61 anos e é professora universitária aposentada. Ela sempre prezou pela saúde e praticou esportes, mas tinha receio de “não dar conta” quando iniciou a jornada na areia, por ser “descoordenada e baixinha”. Hoje, vai pelo menos quatro vezes por semana ao clube para jogar e encontrar as amigas.

“É um grupo super importante na minha vida, fizemos uma amizade que não fica só aqui. Temos uma rede de apoio, às vezes uma precisa de uma coisa, a outra vem e ajuda, eu estava sentada ali com dor, a Satoe veio e já fez uma massagem em mim”, contou rindo.

A companhia virou rotina, sendo que quando alguém está machucada e não consegue jogar, frequenta o espaço mesmo assim só para assistir. A mulher ainda traçou uma comparação: o beach tennis é para as mulheres o que o futebol entre amigos é para os homens.

Encontro de gerações

A amiga “massagista” de Dirce é Satoe Fujii, a mais experiente do grupo, com 73 anos. Ela é aposentada, mas atua como esteticista, e trocou o tênis pelo beach tennis por ser mais prazeroso. “O pessoal tem uma energia tão boa, eu geralmente jogo cinco vezes na semana, mais ou menos de uma a duas horas direto. Participo bastante de torneio também, só nunca ganho muito”, brincou.

Os últimos torneios que as Divas participaram foram o Entre Amigas e Outubro Rosa, com as duplas decididas por sorteio. Fujji considerou que as competições ensinam a ter foco, determinação e a lidar com a frustração, funcionando como um “antiestresse”.

Contando que a bagagem das sete décadas vividas não é um empecilho para o esporte, disse que é comum jogar com quem tem a idade de seus netos, “adorando ficar com a turma”.

Satoe Fujii, Carla Malucelli e Dirce Fujisawa em preparação para um jogo de beach tennis
Satoe Fujii, Carla Malucelli e Dirce Fujisawa em preparação para um jogo de beach tennis | Foto: Heloísa Gonçalves

Escapatória ao luto

Já Lucila Paccola, com 61 anos, é professora aposentada e não integra a equipe desde o início. O beach tennis funcionou como uma escapatória ao luto, quando perdeu o seu irmão e se sentia deprimida. Sabendo que amigas faziam aulas no clube, decidiu dar uma chance ao esporte, contando que precisava de uma atividade ao ar livre, com Sol e a presença de outras pessoas.

“Eu comecei a jogar e adorei tudo, me fez muito bem, só não venho mais por falta de oportunidade, mas quando dá, eu venho”, pontuou a mulher. Garantindo que não pretende abandonar a prática, disse que a amizade forjada com as colegas impulsiona ainda mais o desejo de praticar a atividade física.

“Nós ficamos aguardando esse momento, para ver as meninas e conversar, saber das novidades. Além do esporte ser gostoso, tem esse lado social também, acabamos usufruindo da companhia das pessoas”, considerou Paccola.

Lucila Paccola, 61, se voltou ao beach tennis como auxílio para lidar com a perda do irmão
Lucila Paccola, 61, se voltou ao beach tennis como auxílio para lidar com a perda do irmão | Foto: Heloísa Gonçalves

Liberdade ao ar livre

Marcia Sahão, com 63 anos e aposentada, também se dedica à musculação, mas “sem sombra de dúvidas” o beach tennis é seu esporte preferido. A mulher é uma “diva” desde o início, em 2023, sendo que a amiga Silvia Crippa precedeu a criação do grupo e pratica a atividade desde a pandemia.

Enfermeira aposentada, aos 61 anos, aprecia as amizades e a liberdade que estar ao ar livre proporciona, descarregando tudo o que incomoda na areia. Ela também participa de outros grupos de beach tennis, jogando três vezes na semana com pessoas diferentes.

Marcia Sahão, 63, tem o beach tennis como esporte favorito
Marcia Sahão, 63, tem o beach tennis como esporte favorito | Foto: Heloísa Gonçalves

Preenche o vazio

Carla Malucelli, também com 61 anos, reencontrou no beach tennis a sensação que tinha quando era mesatenista profissional, permanecendo com uma raquete em mãos, mas trocando-a por uma maior.

A aposentada também se dedicou ao vôlei, frescobol e à instrução de mergulho tempos atrás, contando que a vida “muda bastante” com a aproximação da terceira idade. “Hoje quase todo mundo aqui é avó, mas independente da idade a gente se encontra, sai pra jantar, tem confraternização e festa de aniversário. Começa um novo ciclo da idade com um elo muito grande entre todas, é uma nova família a partir dos 60”, comparou.

Contando dos campeonatos que participam juntas, Malucelli disse que “se descobrem de novo” e “fazem porque dá pra fazer”. “Eu tenho 61 anos hoje, a cabeça vai, mas o corpo não deixa você ir totalmente, é muito importante você se esforçar”. Considerou ainda que o esporte envolve alongamento, raciocínio rápido, movimentação, corrida e ainda faz com que a jogadora se sinta na praia.

“O pessoal é bem unido, todo mundo sempre junto e te preenche, porque depois dos 60 dá um vazio, filho sai e a gente tem um vazio dentro. É a lei natural da vida e aqui a gente se encontra”, disse.

Imagem ilustrativa da imagem Beach tennis concede a mulheres ‘nova família a partir dos 60’
| Foto: Heloísa Gonçalves

O que vem por aí

As jogadoras incentivam mulheres a dar uma chance ao beach tennis, principalmente as 60+, como elas. O grupo Divas está aberto a novas integrantes, basta entrar em contato com o Veronica Beach Club.

Para o futuro, as companheiras buscam manter a amizade, o pé na areia, os jogos de baralho pré-jogos e a camaradagem que cura o vazio.

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