Um acidente há três meses na Zona Leste de Londrina teve como consequência uma perna quebrada. O atendimento da vítima e a recuperação foram feitos na Santa Casa. Agora, a vítima do desastre, o motoboy Walde de Oliveira, 26 anos, encontrou uma forma de retribuir os cuidados médicos que recebeu. E ainda por cima economizar.
Ele era um das dezenas de clientes que enfrentaram fila na semana passada para fazer compras num bazar de mercadorias apreendidas pela Receita Federal. Além de ter acesso a produtos de qualidade a preço baixo, ele acabou contribuindo diretamente com o hospital que o assistiu, uma vez que as vendas são em benefício da entidade.
E é a chance de unir oportunidade de economizar e ajuda ao próximo que atrai a freguesia. Mesmo reconhecendo que, para a mercadoria estar ali, alguém arcou com o prejuízo.
O funcionário de empresa de ônibus, Otávio Nilson de Moraes, 36, é um exemplo. Ele conta que ficou sabendo do bazar por cartazes e decidiu conferir as mercadorias para ver se compensava comprar alguma coisa.
Para ele, é uma forma justa de aproveitar os produtos. ''O que era um crime acaba beneficiando quem realmente mais precisa'', comenta. Ele acrescentou que os bons preços das bermudas eram o principal atrativo. ''Comprando umas cinco peças consigo economizar uns R$ 20,00, o que já é uma boa ajuda.''
As bermudas também foram o principal atrativo para a dona-de-casa Vanda Martins, 46. Avó de sete netos, ela disse que aproveitaria a oportunidade para garantir presentes para grande parte da família.
Mesmo assim, lamentou a sorte dos sacoleiros que têm as mercadorias apreendidas. ''Quem está indo buscar não é porque quer, mas por falta de opção. Muitas pessoas ficaram sem a mercadoria. A verdade é que alguém sempre perde'', diz. ''É que a corda sempre acaba estourando do lado mais fraco'', acrescenta o motoboy Walde de Oliveira.
O ponto principal da questão, na opinião do delegado da Receita Federal Sérgio Gomes Nunes, não é a dificuldade de quem depende do contrabando de mercadorias para viver. O problema é o círculo vicioso que este tipo de crime gera.
''O trabalho de apreensão é uma necessidade operacional. E a legislação prevê a doação, como uma forma de cumprir um papel mais nobre'', justifica Nunes. Segundo ele, a repressão é necessária para reduzir o contrabando, que serve de fachada para outros crimes.
Este tipo de crime, segundo ele, gera a diminuição da arrecadação e dos empregos formais, que afetam diretamente quem atualmente luta para sobreviver com a venda de mercadorias trazidas de outros países.

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