Bautista Vidal: 'Vamos viver de quê? De cuspe?'
Nelson Capucho
De Londrina
A grande mídia ainda não o descobriu. Ou faz de conta que ele não existe. Mas o físico e professor Bautista Vidal vem sendo cada vez mais requisitado para expor a sua visão original e contestadora em palestras nos quatro cantos do País. Crítico ferrenho dos governos Collor e FHC, autor de vários livros e colaborador assíduo da revista Caros Amigos, ele concedeu esta entrevista à Folha de Brasília, onde reside por fax e telefone na última quinta-feira. Para o professor Bautista Vidal, a era do petróleo está chegando ao fim e o Brasil, rico em fontes energéticas, poderá ter um poder inimaginável. Desde que seus governantes não abram mão destas riquezas, obviamente.
Folha Como o País poderia ter evitado o atual nível de comprometimento com o capital externo?
Bautista Vidal O governo entreguista de FHC, dando prosseguimento ao de Collor, encaminhou o País para o desastre pela destruição do Estado, único capaz de resistir às agressões do neoliberalismo e da globalização. Isto levou a uma absurda abertura de uma economia já escancarada, sem contrapartida. As economias centrais continuam mantendo severo protecionismo para os produtos brasileiros.
Folha As consequências do Plano Real eram previsíveis?
Bautista Vidal O sinistro Plano Real aprofundou a destruição da agricultura, iniciada no governo Collor, e está exterminando a indústria de capital nacional: 70% já foi internacionalizada. Foi implantada uma ditadura video-financeira dentro da qual é impossível sobreviver. Enquanto a empresa estrangeira tem acesso a créditos externos com juros de 4 a 6% ao ano, a nacional tem de pagar entre 40 e 100 % ... Só idiotas podem pensar que vai sobrar algo de nacional! Na realidade, o governo brasileiro entregou a economia do País ao controle de dinheiro espúrio e delinquente externo de um sistema financeiro internacional que está caindo aos pedaços. Menos de 5% da moeda de referência tem a ver com riqueza. Tudo está descrito em detalhes no capítulo A Armadilha de meu livro A Reconquista do Brasil, editado pela Espaço e Tempo do Rio de Janeiro, em 1996. Lá está descrita a montagem do desastre, que veio a ocorrer em janeiro de 99.
Folha Apesar da justificativa de que não havia como fugir da globalização, o governo federal deve ser responsabilizado pela crise econômica nacional?
Bautista Vidal Não se trata de crise econômica mas de débâcle financeira pela qual o Estado brasileiro está sendo destruído, perdendo o controle de nossos patrimônios naturais estratégicos: genético, pela lei das patentes; mineral pela internacionalização da Vale; internacionalização das águas, pela privatização do sistema elétrico; controle externo das reservas de petróleo pelo esquartejamento da Petrobrás, etc. Compromete-se assim dezenas de gerações adiante. Vamos viver de quê, de cuspe? Há um gravíssimo crime cometido contra o povo brasileiro, especialmente sobre as
futuras gerações, a partir da geração de nossos filhos. Não há crime mais hediondo. O maciço desemprego atual dá o tom do genocídio em marcha...
Folha Privatizações como a do sistema elétrico nacional, por exemplo, são realmente necessárias?
Bautista Vidal Desconheço país que entregue o controle de suas águas ao controle externo. É uma loucura e uma traição. Como se pode pensar em desenvolvimento e em melhorar a vida da população não tendo em nossas mãos o controle das águas, entregues na bacia das almas à cobiça da ganância espúria internacional? Reduziram tarifas, criaram todo tipo de entraves para dificultar a vida das outrora eficientíssimas empresas de economia mista estratégicas, guardiãs de nossos patrimônios estratégicos. Após cobertos pelo Estado os rombos artificialmente provocados por tarifas irreais e perversas adrede para arrebentá-las no campo financeiro , em processo dito de saneamento financeiro, impedindo-as de investirem em necessárias expansões, foram internacionalizadas.
Folha E em seguida...
Bautista Vidal Aí vieram polpudos aumentos de tarifas e benesses de todo tipo, com a substituição de milhares de experimentados técnicos por estrangeiros, cuja ineficiência tem ficado comprovada com os vários desastres já ocorridos, apagões etc.. Ademais, as compras de equipamentos e de serviços passaram a ser canalizadas para empresas dos países de origem das compradoras. Uma esbórnia e um crime
contra nossas empresas e contra a vida do nosso povo!





