Com o polêmico tema ‘‘A Palmada Deseduca’’, o Laboratório de Estudos da Criança (Lacri), do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (IPUSP) lançou recentemente sua campanha anual para inibir a violência doméstica. São cerca de 600 pessoas trabalhando em todo o País, através de parcerias com secretarias de saúde e educação, escolas, igrejas e organizações não-governamentais (ONGs). Em Londrina, a campanha está sendo divulgada por dois grupos de profissionais que fazem especialização em Infância e Violência Doméstica no Lacri.

Profissionais de Londrina trazem para o Paraná a campanha ‘‘A Palmada Deseduca’’, do Lacri de São Paulo; movimento esclarece os pais que é melhor conversar com os filhos do que surrá-los
O objetivo da iniciativa é provocar a mudança de um conceito antigo, visto como verdade inquestionável durante várias gerações: de que é preciso bater na criança para educá-la e fazê-la conhecer limites. Na prática, especialistas têm comprovado que a verdade é bem diferente. O chamado disciplinamento corporal está mais para uma demonstração de falência da autoridade do adulto e de uma adesão desesperada ao autoritarismo. ‘‘Os pais acham que bater é um sinal de força, mas, pelo contrário, é uma demonstração de fraqueza’’, complementa o pediatra Renato Moriya.
A campanha da USP alerta até mesmo para o ‘‘psicotapa’’, ou aquele tapinha no ‘‘bumbum’’ que a grande maioria acha indispensável. Entre as razões enumeradas para ser contra ‘‘essa forma de violência dos grandes contra os pequenos’’ está o fato de que, quando apanha, a criança fica reduzida à condição de coisa, de objeto inerte, passível de agressão. Em outras palavras, os estudiosos consideram o surrar uma covardia.
‘‘A palmada é a porta de entrada da violência e deve ser evitada’’, diz Renato Moriya. Ele afirma que a surra propicia o surgimento de uma criança agressiva (que acha que pode usar a mesma arma para conseguir o que quer), cínica (que enfrenta os pais, dizendo que não doeu) e mentirosa (que mente por medo de ser surrada), além de provocar o rebaixamento da auto-estima infantil.
Para os especialistas, mesmo a ‘‘surra por amor’’ funciona como uma forma ambígua de demonstrar este sentimento, confundindo a cabeça da criança. ‘‘Até a ‘palmadinha terapêutica’ deve ser substituída pelo diálogo, pelo afeto, pela empatia com a criança’’, defende a psicóloga Adriana Felipov.
Outro argumento utilizado pelos profissionais que estão à frente da campanha é que a falta de controle da situação, geralmente registrada neste tipo de situação, faz com que as agressões físicas evoluam com o tempo. Ou seja, os pais, na tentativa de recuperar sua autoridade sobre os filhos, passam a bater cada vez mais. ‘‘São pais que tentam se impor pela violência e não pela racionalidade’’, afirma a psicóloga.
Só em Londrina, levantamento do Conselho Tutelar mostra que de janeiro a agosto deste ano foram registrados 94 casos de violência física cometida por pais ou responsáveis. Mais preocupante é saber que os casos ocorridos nas classes média e alta dificilmente chegam até o Conselho. As estatísticas portanto não são conclusivas, justamente pela dificuldade de registrar os casos.
Renato Moriya ressalta que o grupo não é contra a disciplina e o limite, tão necessário e tão discutido nos dias de hoje. ‘‘Mas é muito importante que o ‘não’ seja justificado sempre’’, recomenda o médico. Os alunos da especialização desenvolvida no Lacri reconhecem que não será tarefa fácil mudar uma prática histórica. Eles lembram que o tema gera resistência até entre profissionais, porque mexe com a estrutura familiar. ‘‘E existem famílias que não estão preparadas para educar.’’
Para convencer, o movimento contra a violência doméstica lança mão de argumentos contundentes. Em texto preparado para a divulgação do assunto nos meios de comunicação é ressaltado, por exemplo, que os índios brasileiros não tinham o costume de castigar fisicamente os filhos. Foram os padres jesuítas e capuchinhos que introduziram o costume como forma de disciplinamento das crianças no Brasil.
De acordo com a pesquisadora e coordenadora da campanha, Cassilda Costa Paranhos, a previsão é que o movimento dure três anos. Até agora, ela vem sendo divulgada pelas 116 equipes de alunos que fazem especialização no Lacri. No próximo dia 20, a campanha será lançada oficialmente na USP. A pesquisadora informa ainda que 60 mil pessoas já se posicionaram a favor da iniciativa, através da Petição por Uma Pedagogia Não Violenta – divulgada pelos multiplicadores da campanha –, e da internet, acessando o site www.portaleducativo.com.br.
A petição tem por objetivo solicitar empenho dos líderes de todas as nações no sentido de que a Assembléia Geral das Nações Unidas se manifeste publicamente condenando todas as formas de violência na educação das novas gerações. O primeiro país a banir toda e qualquer punição corporal às crianças no âmbito do lar e da escola foi a Suécia, em 1979. Em anos seguintes a Finlândia, Dinamarca, Noruega, Áustria, Chipre, Letônia e Croácia fizeram o mesmo. Já a Itália, Bulgária, Irlanda, Escócia, Inglaterra e Alemanha estão em vias de abolição.

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