Bate-boca com Deus
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 30 de agosto de 2001
Rodrigo Souza Grota 
''O senhor sabe que eu não tô lá porque eu não quero, não sabe?'' Essa indagação, que em si já traz a resposta, foi ouvida em uma noite fria, não tão distante dos dias de hoje. Em frente à Catedral Metropolitana de Londrina, um senhor de seus sessenta e poucos anos orientava-se por um interlocutor imaginário.
Ele se guiava por olhos compreensivos que o avistavam de longe, mas nem por isso a conversa prosseguia em bom-tom. Era um bate-boca único, entre um pobre moribundo e seu amigo oculto, Deus. A intempestividade do pobre senhor rompia assustadoramente, instalando um embate terrível entre obra e criador:
''Você pensa que eu não sei, você nem se lembra. Nem sabe quem sou'', resmungou. Andava lentamente e parava em breves instantes. Erguia a cabeça, baixava a raiva e retornava à prudência. ''Acho que eu não sei.''
O homem, tão distante de si como da sociedade, caminhava a passos largos, lentamente. O olhar se fixava em imagens mortas, mas a impressão de uma sinfonia natural era tão forte que, comovido, se agachava e deitava sobre a relva. Balbuciou coisas que ninguém sabe, talvez nem ele, mas era necessário falar. O silêncio o perturbava tanto que os vocábulos mais imprecisos atribuíam uma segurança insuspeitável a esse homem.
Era uma noite de agosto. Mas uma noite nunca é tão somente uma noite e os contatos com o imaginário crescem à medida da luz. Como se a razão pertencesse ao dia e aos ébrios noturnos, o instinto do fantástico. Esse senhor talvez nem acreditasse em Deus, esse Deus que conhecemos por meio dos católicos, muçulmanos, judeus e outros. E, sem dúvida, conhecia mais Deus do que muitos, não pelo suor da fé, mas sim pelos tropeços do engano.
Finalmente, não mais do que uma vez, o pobre homem sorriu. Olhou para o alto e percebeu que nada poderia ser tão distante assim, já que o criador de tudo lhe era próximo.


