Depois de um dia inteiro de trabalho pesado, a cama parece ser o espaço ideal para repor as energias, desfazer o cansaço e recuperar o sono. Mas nem sempre é assim. Muitas vezes, o zum-zum-zum da rua, dos carros e dos vizinhos, acaba transformando a hora do sono num verdadeiro teste de paciência. É o inferno do barulho, que pode tirar do sério até o mais pacato dos cidadãos.
Exemplos não faltam: o namorado da vizinha coloca um som novo no carro, abre o capô, e resolve testar a capacidade do equipamento às 3 da madrugada; o caminhão de lixo, escandaloso, passa às 3h30, arrastando tambor e o sono do quarteirão inteiro; às 4, o alarme do carro da vizinho começa a soar insistentemente, e o cidadão não desce à garagem para desligá-lo; às 5h30 é a vez da cachorrada começar a latir; e às 6h30, em pleno feriadão, os operários da construção, bem em frente à janela do quarto, resolvem fazer hora extra e logo começa o barulho de serra.
Sem contar as tradicionais festinhas inesperadas, no ático ou coberturas de edifícios residenciais, que entram madrugada adentro com os decibéis nas alturas. Pois foi exatamente isso o que ocorreu recentemente na esquina da Rua Espírito Santo com Avenida Rio de Janeiro, na área central de Londrina. Uma moradora da cobertura do Edifício Ariane resolveu dar uma festa e ligou o som no último. Até às 5 da manhã!
‘‘Parecia boate. Todos os vizinhos da região reclamaram’’, comenta o representante de laboratório Arleu Gonçalves Júnior, 38 anos, que mora num prédio da Avenida Rio de Janeiro, muito próximo ao Ariane. O morador recorda que a festa deve ter começado por volta das 11 horas da noite e o barulho do som era insuportável. Ele e outros vizinhos tomaram coragem e reclamaram com a Polícia Militar, o porteiro do prédio e até a síndica do prédio vizinho. Resultado: o porteiro disse que foram mais de 100 reclamações; a síndica admitiu que também não estava conseguindo dormir; a viatura da PM chegou ao local mas não pôde subir à cobertura; e a festa rolou até quase de manhã, do mesmo jeito.
‘‘Festa de rico’’, definiu Arleu Gonçalves. ‘‘Moro aqui há seis anos e nunca tinha me incomodado. Para mim, a pessoa deve ser muito prepotente para fazer uma coisa dessas. É preciso respeitar os vizinhos e isso foi uma falta de educação enorme.’
Situação não menos agradável é quando o barulho é constante, como acontece com quem mora próximo ao Zerão, no anfiteatro, e também Ginásio de Esportes Moringão. Lá, difícil o final de semana - ou mesmo dias úteis - em que não ocorrem shows musicais ou cultos religiosos. ‘‘Quando tem show é brincadeira. Parece que você está dentro do inferno. E o negócio normalmente vai longe, e ninguém consegue dormir’’, lamenta Silvânia Canezin, 43 anos, que mora ao lado do anfiteatro há nada menos que 41 anos. Muito antes, na verdade, do anfiteatro ser construído. ‘‘No meu quarto, quando tem show, a impressão é que eles estão tocando em frente a minha cama.’
Silvania Canezin acrescenta que ultimamente também tem sofrido bastante nos dias de Feira da Lua, às quartas-feiras. O problema é a música ao vivo, que toca alto e atrapalha até para falar ao telefone. Ela reclama também do ‘‘pagode’’ que tem toda semana num bar instalado no Zerão e vai até de madrugada. E, para completar o coquetel, naquela região os aviões passam baixinho, com as turbinas no máximo. ‘‘Deveria ter limite. Não existe a tal lei do silêncio?’, questiona.
Sobrinho de Silvania, Fabrício Fontes Fabre está morando com a mãe em frente ao Moringão e não se acostuma com a sucessão de cultos religiosos que acontecem no local. ‘‘Quando começa, tem que fechar a casa e levantar o som da tevê no último para abafar o barulho. Só dá para dormir quando acaba, às vezes muito tarde’’, diz. Domingo passado, ele lembra, foi ao contrário: o carro de som de uma igreja passou às 8 da manh㠑‘avisando’’ aos moradores que estava na hora de acordar.
Mas os campeões de reclamação são mesmo os moradores vizinhos dos bares da moda. Por mais que o estabelecimento se preocupe em tratar a acústica do prédio (situação não muito comum), para abafar o som, só a movimentação de carros e o falatório dos fregueses, em frente à rua, já são suficientes para incomodar o sono de qualquer um. Às altas da madrugada, a situação piora: começam os rachas, as buzinas, a gritaria, as garrafas quebrando no asfalto e as brigas escandalosas. Aí, nem Lexotan resolve.
Exemplo clássico é o famosa Casa da Cachaça, no centro de Londrina, vizinho da não menos popular - e insone - padaria Olímpia. Os fregueses já chegaram a fechar o trânsito para festar na rua e os proprietários argumentam que não podem fazer nada: a confusão é do lado de fora do bar, e não dentro. Às vezes a polícia chega, abafa a bagunça, libera a rua, mas depois vai embora e tudo volta a ser como antes. Em período de vestibular a situação fica ainda mais crítica, com a chegada de milhares de jovens à cidade. Boa parte deles preocupada mais com as noitadas do que com os testes de múltipla escolha. No Pátio São Miguel, também área central, a situação não é diferente.
Fato curioso ocorre bem em frente ao 2º Grupamento do Corpo de Bombeiros, na Vila Nova. A maioria dos moradores não se incomoda com o ir e vir das viaturas, principalmente do Siate, que não tem hora para ligar as sirenes e partir em disparada, para atender ocorrências. ‘‘Para mim não é nenhum estorvo, a gente já está acostumada. Tem dia até que nem sai uma só viatura de lá. Só é chato porque, quando sai, a gente sabe que é para socorrer alguém’’, diz a moradora Marina Tufino, 65 anos, metade deles morando na região.
Dona Marina explica que, na verdade, o problema maior da região está bem em frente ao Corpo de Bombeiros, onde funciona um bar com karaokê. Segundo ela, o estabelecimento fica aberto toda noite e nem sempre tem hora de fechar. ‘‘É carro, é gente falando, é uma confusão danada.’’

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