A chuva que começou na segunda-feira à noite está castigando os moradores da periferia de Londrina que ainda não contam com ruas asfaltadas. A situação é ainda pior nos novos assentamentos de sem-teto, onde as famílias se abrigam sob lonas.
No jardim Crystal (zona sul), onde está o mais recente grupo de assentados da Cidade, as famílias só saem dos seus barracos, cercados pela lama, por extrema necessidade. Foi o caso do eletricista Ernandes Cândido dos Anjos, 25 anos, e sua mulher. Com a chuva invadindo o barraco, o casal se viu obrigado a levar os dois filhos de cinco e três anos para a casa de um tio nas proximidades. O casal se preocupa com as crianças. Segundo a mãe, elas têm bronquite.
Messias Ciliro Dutra, 48 anos, e Juventina Correia, 55, passaram o dia de ontem amontoados no barraco junto com os quatro filhos. Antonio, 4 anos, o mais novo dos filhos, chegou da escola todo molhado e aproveitou o fogão a lenha improvisado dentro do barraco para se secar.
Dispostos a garantir a posse do terreno, já demarcado por eles mesmos, as 38 famílias que vivem no local preferem enfrentar o barro a voltar a pagar aluguel. ‘‘Prefiro enfrentar isso do que pagar aluguel’’, justifica Dutra. Ele é bóia-fria. Tudo o que ganhava ia para o aluguel de R$ 100,00. ‘‘Queremos o terreno, não importam as dificuldades, chuva, nada. Não vou desistir do lote de jeito nenhum’’, diz Dos Anjos, que conseguiu emprego há uma semana e vai ganhar aproximadamente dois salários mínimos. ‘‘Só pagar aluguel, água e luz, já vou gastar R$ 150,00. Como é que eu sustentaria minha família assim? O jeito é ficar.’’
O assentamento no Crystal começou com nove famílias que foram levadas para lá na semana passada pela Prefeitura, depois de terem invadido as casas de fibrocimento no conjunto Ilda Mandarino (zona norte). Cinco delas desistiram. Atentos à informação de que famílias do conjunto Ouro Verde (zona norte) pretendiam se juntar ao grupo, outras 34 famílias da redondeza do assentamento se apossaram de lotes no último sábado. Elas moravam de aluguel ou favor em casas de parentes nas redondezas. Segundo um dos representantes dos assentados, José Galdino Pereira, não há espaço para mais nenhuma família. Ele afirma ainda que o assentamento já tem o apoio de 16 famílias do jardim Crystal, que reivindicam a escritura de suas casas junto à Prefeitura.
A situação das famílias só deve ser regularizada se a Prefeitura conseguir a troca do terreno, pertencente à loteadora Tupy, por parte de uma dívida da empresa junto ao município.
A situação nos dias de chuva não é muito diferente no jardim Novo Perobal (zona sul). Apesar das casas, eles, na maioria desempregados, preferem não se aventurar pelas ruas quando chove. As obras para receber a pavimentação começaram no ano passado e pararam. Alguns trechos chegaram a ser asfaltados mas a enxurrada, levando terra e pedras das outras ruas, acabou esburacando tudo. Os bueiros já prontos acabaram se transformando em grandes poças de água. ‘‘Quando chove fica uma tristeza’’, lamenta Célia Ramos Sena de Góis, 28 anos. Ela, o marido Ailton Antonio de Góis e a filha moram no bairro desde 1993. A casa de Célia fica na última rua do Novo Perobal, e é sempre invadida pela enxurrada.
A aposentada Maria Cândida da Silva, 59 anos, está tão acostumada com a situação que, apesar da chuva, lavava roupas ontem à tarde. Ela mora no bairro há nove anos. ‘‘Sair daqui em um dia desse? Só por doença. Ainda assim a gente tem que se arrastar pelo barro até chegar no asfalto e pegar o ônibus’’, reclama. Para piorar a situação nos dias de chuva, os moradores são obrigados a andar algumas quadras a mais, porque o ônibus só passa no jardim Franciscato, que fica acima do Novo Perobal.

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