Duas mil famílias em cerca de 30 áreas ocupadas, de acordo com números fornecidos pela Superintendência Estadual do Paraná do Incra, fazem da região de Querência do Norte, na divisa com o Estado do Mato Grosso do Sul, um barril de pólvora prestes a explodir. Polarizada por Querência, a região praticamente acorda a cada novo dia com uma nova notícia de ocupação de terra.
A mesma superintendência informa que o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) já foi contemplado na região com 14 dos 165 assentamentos criados no Paraná, cujo total de beneficiados é de 11.926 famílias. Até o final deste ano, só em Querência e nos municípios vizinhos outros 43 projetos de assentamento deverão estar consolidados, abrigando cerca de 1.000 famílias, segundo o Incra.
Mário CésarEsperançaOtília Batista, ao lado do filho Amauri, teve 7 dos 11 filhos nascidos na fazenda que hoje ocupa e luta por um loteOs números e a previsão para a região não puderam ser comparados com os do MST. A presença da reportagem da Folha em Querência, no último dia 21, segunda-feira, causou ‘‘estranheza’’, conforme explicou um funcionário da Cooperativa de Comercialização e Reforma Agrária (Coana), que se apresentou apenas como José. Mas no Estado os números não batem, por pouca diferença. Durante viagem pelo Oeste do Paraná, o coordenador estadual do movimento, Roberto Baggio, disse que a partir de 1983 foram criados 152 projetos de assentamento, beneficiando 10 mil famílias.
Dentro do barril de pólvora o cotidiano de algumas famílias que lutam por um pedaço de terra é recheado de dúvidas. Cerca de 200 metros longe da porteira da antiga Fazenda São Pedro, de 557 alqueires, um personagem anônimo deixa a moita de capim e se põe a falar. Diz que tem medo, fala apressado, olha para os lados, confessa:
- Não posso falar muito com vocês, eles podem ver.
- Eles quem?
- O pessoal da coordenação. É que o Incra mandou dividir em 53 lotes de 8,3 alqueires cada um. Mas eles aqui estão querendo 47 lotes de 8,2 alqueires. O que vão fazer com a área que sobrar? Eu preciso ir, senão agora mesmo vou ser excluído do sorteio dos lotes.
Com-terraGenivazio Moreira dos Santos, assentamento e casa na cidadeTrês telefonemas à Redação da Folha durante a semana, também de pessoas que disseram ser sem-terra, manifestaram o mesmo temor do anônimo da estrada. Na antiga São Pedro, que depende somente do sorteio dos lotes e de encaminhamentos burocráticos para virar assentamento, vivem atualmente 50 famílias.
O líder, que os sem-terra chamam de ‘‘Jamanta’’, não se encontrava na área segunda-feira. Ele estaria participando de uma reunião em Curitiba. Seu substituto não se identificou e se negou a conversar.
Poucos quilômetros adianta, também na margem da rodovia que liga Querência do Norte ao vizinho município de Santa Cruz do Monte Castelo, o assentamento Margarida Alves apresenta perfil diferente: o coordenador está de saída para cumprir compromissos na cidade, mas autoriza o integrante da comissão de negociação, Genivazio Moreira dos Santos, 52 anos, a mostrar a produção agrícola e pecuária dos moradores.
O Margarida Alves, também conhecido como ‘‘17 de Maio’’ em referência à data em que foi criado, no ano passado, tem área de 230 alqueires e está dividido em 20 lotes, de 9 alqueires cada.
Genivazio garante que existe muito espírito de união entre os assentados. Recentemente, cada família investiu R$ 1.000,00 na perfuração de um poço e instalação de uma bomba para levar água a cada lote. A energia elétrica ainda não ilumina as casas, mas as famílias pagam R$ 1,00 por mês cada um para pagar o consumo de energia da bomba elétrica que puxa a água do poço.
O café adensado é uma das culturas predominantes. O Margarida Alves já tem 120 mil pés plantados nos lotes de seus moradores. Outra cultura comercial é a mandioca. No ano que vem, as famílias pretendem produzir 1.000 toneladas. O milho é cultura de subsistência, mas o gado leiteiro serve para dar alimento às crianças do assentamento e também para a comercialização do excedente.
Até Genivazio, hoje com 17 cabeças de gado, pretende ampliar a atividade. Tomado pela euforia, ele se descuida e anuncia:
- Vou vender a casa que tenho em Querência e com o dinheiro vou comprar gado.
- Casa grande?
- De 140 metros quadrados, em alvenaria. Construída em dois terrenos de 600 metros quadrados cada.

mockup