Mauricio Della Barba
De Londrina
Uma placa de bronze sinaliza o início de tudo. ‘‘Conjunto Habitacional Barra Vento. Primeiro passo para o desfavelamento. Prefeitura Municipal, 18 de março de 1971’’. No fundo de um vale, no meio de muito mato, barro e dois córregos, o Barra Vento surgiu.
Apesar do nome pouco conhecido e do seu pequeno tamanho – tem apenas duas ruas e cerca de 30 casas – o Barra Vento está em um local ao mesmo tempo privilegiado e marginalizado. Faz frente com o Centro Social Urbano (CSU) da Vila Portuguesa e margeia uma parte do início da Avenida Duque de Caxias. A proximidade dos bairros, muitas vezes, leva o Barra Vento a ser confundido com a Vila Portuguesa.
Na realidade, não é. Não somente pela localização no mapa, mas também por sua personalidade e características. As duas ruas, Felipe Camarão e Peri, são recortadas e divididas de forma inusitada. Estreitas, e com pouca gente andando, leva os mais antigos a uma viagem nostálgica ao passado.
A impressão ao chegar ao pequeno bairro é de estar em uma cidade do interior, bem pacata, com as portas das casas abertas e os muros baixos. Vale lembrar que aproximadamente a 1.500 metros acima é possivel chegar ao centro da cidade.
A simpatia e a tranquilidade nem sempre estiveram presentes no Barra Vento. Os moradores mais antigos da região contam a história do bairro. ‘‘Aqui era uma favela. Só morava gente que gostava do que era alheio’’, diz em tom irônico, dona Isabel Oliveira de Paula, a primeira moradora do bairro, há 28 anos.
Isabel foi empregada doméstica do ex-prefeito de Londrina, Dalton Paranaguá, o mesmo que construiu o bairro e as casas do Barra Vento. ‘‘Foi ele que me deu a casa naquele tempo. Tinha apenas um cômodo e um banheiro. Morava com meus dois filhos, uma nora, meu pai e minha mãe’’, relembra.
Nos três anos em que trabalhou na casa do ex-prefeito, isso há 20 anos atrás, Isabel percorria a pé o trajeto do serviço. ‘‘Era cansativo, mas o ônibus não passava aqui e não tinha paciência para esperá-lo. Mesmo assim, nunca cheguei atrasada ao trabalho. Às 7 horas da manhã o café estava na mesa deles’’, vangloria-se Isabel.
Sobre o passado e o presente do bairro, Isabel comenta: ‘‘Era um brejão só. Não existia muros, apenas umas ripas de madeira. Havia muita confusão entre os vizinhos e muita gente que não prestava. Agora é diferente, entrou gente nova, ninguém amola ninguém, uma paz’’, afirma.
A antiga moradora justifica como o principal fator da mudança radical, a construção do CSU. ‘‘Na campanha do Dalton, acho que era para se reeleger, eu que pedi a construção de uma creche. Demorou para acontecer, mas o Centro que está aí ajudou e ajuda todo o pessoal daqui. Isso fez mudar tudo’’, diz.
Isabel, que completou ontem 78 anos de idade, merece os parabéns. O CSU hoje serve como referência do bairro. Criado há 20 anos atrás, o CSU reúne, em uma ampla área verde, creche, um posto da Polícia Militar, o Posto de Saúde Ody Silveira, duas canchas, quatro campos de futebol, um parque infantil e escritório da Secretaria de Ação Social.
Apesar da estrutura, o CSU está em péssimo estado de conservação. A população dos bairros vizinhos reivindica, há tempos, melhorias para um dos únicos locais de lazer da região. Com as cercas de alambrado praticamente destruídas, quadras de futebol de salão deterioradas, brinquedos quebrados e mato por todo lado, o parque, situado em um fundo de vale, dá claros sinais de abandono.
‘‘É uma pena. Um cano da Sanepar quebrou já faz tempo, e criou uma poça enorme, quase um lago, propício para a procriação do mosquito da dengue’’, afirma o aposentado João Gabriel Pedro, morador do bairro. Para ele, falta uma maior atenção por parte das autoridades para o CSU. João Gabriel reclama também do mato que cerca o córrego Bom Retiro, que cruza o CSU e o Barra Vento. ‘‘Em dias de chuva e calor, há um mau cheiro grande, devido ao lixo e animais mortos jogados no riacho’’. O morador sugere a limpeza das margens do córrego e um caminhão pipa para uma lavagem completa das paredes de pedra do riacho.
O córrego e uma antiga seringueira são as únicas coisas que resistiram ao tempo no Barra Vento, segundo seo Joaquim Martinho Bueno, de 93 anos, morador do bairro há mais de 25 anos. ‘‘Isso aqui mudou e muda dia após dia’’, diz.
Sentado na cadeira da varanda de sua casa, seu Joaquim conta como presenciou o crescimento da região.‘‘Era um taboal só. A gente atolava até a canela no barro’’, lembra. Pai de dez filhos, sendo que seis ainda vivos, seu Joaquim é um morador solitário do Barra Vento. ‘‘Aqui eu fico vendo a vida passar e chegar’’, reflete.
O passado pode ser visto no jardim e no quintal da casa de seu Joaquim. Uma placa, pintada a mão, revela a intenção: ‘‘Vende-se couve, cebolinha e salsinha’’. Na horta de casa, seu Joaquim revive os tempos antigos. ‘‘Trabalhei muito no sítio, com a terra, e isso aqui é uma forma de lembrar daqueles tempos’’.
Para quem ainda não conhece o Barra Vento, vale a pena ir até lá para uma rápida visita. Pode ter certeza que as portas estarão abertas e com pessoas simpáticas esperando. Além do mais, não é sempre que se pode comprar couve, cebolinha e salsinha retirada na hora da terra por R$ 0,50 o maço, a 1.500 metros do centro de Londrina.

ONDE FICA:
a 1.500 metros do centro de Londrina e próximo do Centro Social Urbano da Vila Portuguesa
Quantidade de casas: apenas 30
Quantidade de ruas: apenas duas
Vantagem: proximidade do centro da cidadeLocalizado a cerca de 1,5 quilômetro do centro de Londrina, conjunto tem cerca de 30 casas distribuídas em duas únicas ruas
Fotos Dorico da SilvaCERCADOFundo de vale abriga o Conjunto Residencial Barra Vento, inaugurado no dia 18 de março de 1971Ruas tranquilas e casas do mesmo padrão são as características do bairroA placa inaugural do Barra VentoO Córrego Bom Retiro, encostado nas residênciasJoaquim Martinho Bueno, 93 anos, mora no bairro há mais de 25 anos: ‘‘Isso aqui mudou e muda dia após dia’’Isabel Oliveira de Paula, primeira moradora do bairro: ‘‘Aqui era uma favela. Só morava gente que gostava do que era alheio’’João Gabriel Pedro, aposentado, reclama da falta de maior atenção por parte das autoridades para o CSU

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