Bar da Quintino é 'point' de punks
Paulo Henrique Faria
De Londrina
Especial para a Folha
A velha frase dos anos 70 punk is not dead (o punk não morreu) nunca esteve tão viva no Brasil dos anos 90. Em Curitiba, recentemente, alguns deles resolveram manifestar publicamente seu apoio ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e um grupo acompanhou a Marcha dos 100 Mil, saindo de diferentes pontos do País.
Não se sabe se entre eles havia algum representante londrinense. Porém, os que ficaram na cidade compartilham da mesma opinião dos que foram, quando o assunto é o governo de Fernando Henrique Cardoso: a situação está mal. Pelo menos é o que garantem os punks que se reúnem todos os sábados à noite no Bar Potiguá II, um boteco localizado na Rua Quintino Bocaiúva, região central da cidade.
Mas o grupo londrinense nega ser uma organização. Não queremos propor nada para a sociedade, pois não fazemos parte dela, afirma Maira, uma jovem de 20 anos que se define como uma desencaixada social. Mas apoiamos incondicionalmente os grupos que lutam pela distribuição de terra.
Mesmo sem dados ou números que comprovem a quantidade de punks que circulam pelas ruas de Londrina, esses jovens facilmente identificados pelo visual agressivo que adotaram roupas velhas, grossas correntes no pescoço, body piercings e cabelos coloridos afirmam que ser punk é, em primeira ordem, um lance cultural, pois na verdade são críticos sociais que, mesmo abominando o capitalismo, sabem que também precisam de dinheiro.
Nosso grande lance é a produção independente, fora dos meios de comunicação de massa e sem visar o lucro, explica Marcos, outro punk frequentador do bar. Segundo ele, o movimento é mantido e divulgado através da publicação de fanzines e cartazes colados em pontos estratégicos.
Contrariando as aparências, os punks fazem questão de ressaltar que não são violentos. Entretanto, essa atitude não assegura a integridade física de ninguém. A cicatriz que Marcos carrega do lado esquerdo do tórax, resultante de uma facada dada por Skin-heads (carecas que adotam a cruz suástica e pregam a superioridade da raça branca) é um bom exemplo disso. Somos da paz assegura , mas os conflitos com essa gangue são inevitáveis.
Outra questão interessante sobre os punks é a diversidade de classes sociais que existe entre eles e suas relações com a família. Maira mora com o pai, professor da Universidade Estadual de Londrina (UEL) que apóia a filosofia de vida da filha; Marcos deixou a família em Porto Alegre e está desempregado; já um rapaz que não quis ser identificado é sustentado pelos pais e cursa geografia na UEL.
A consciência política do grupo também contradiz a sua aparente alienação. A globalização é linda, mas é só para um terço da população, argumenta Maira. É coisa de americano, quem ficar de fora vai morrer de fome ou vai para a cadeia, como acontece com os negros e latinos, completa Marcos.
Para eles, o País está à beira de uma guerra civil e o atual presidente faz parte de um esquema muito maior cumprindo o que manda o FMI (Fundo Monetário Internacional). Independente de estarem ou não com a razão, uma coisa eles têm certeza: dizem ser a continuidade do movimento, que está prestes a comemorar seus 30 anos.Visual agressivo caracteriza os frequentadores das noites de sábado do Potiguá II, na região central de Londrina
Cesar AugustoNADA DE FOTOOs punks londrinenses não permitem fotografia; apenas a fachada do Bar Potiguá II pode ser mostradaCesar AugustoDonizete de Lima, dono do bar: Os punks ouvem suas músicas, pagam suas contas e vão embora sem causar tumulto





