Londrina

César AugustoA primeira viagemTomi Nakagawa recebe Comenda Ouro Verde ontem à noite na Câmara: testemunha da imigração japonesaQuem passa pelo jardim Campo Belo, zona oeste de Londrina, não imagina que ali mora uma parte importante da história da colonização japonesa no Brasil. Dona Tomi Nakagawa, 91 anos completados ontem, é a última passageira viva do navio Kasato Maru, que chegou ao país em 1908 trazendo os primeiros imigrantes japoneses. No dia de seu aniversário, dona Tomi recebeu um presente especial, além dos muitos que ganhou de amigos e familiares: a Câmara dos Vereadores condecorou a pioneira, em sessão especial na noite de ontem, com a Comenda Ouro Verde, a mais alta homenagem que uma pessoa pode receber na Cidade.
O ano de 1997 tem sido muito especial para dona Tomi. Em junho, com a visita do casal imperial do Japão ao Brasil, ela foi convidada pelo cerimonial da presidência da República para participar, em Brasília (DF), de uma homenagem aos monarcas no Itamaraty. ‘‘Fiquei sentada ao lado da imperatriz (Michiko). Eu estava atrás e ela segurou minha mão e me puxou para o lado dela’’, lembra, com emoção. No dia seguinte, esteve também num jantar no Palácio da Alvorada, com a presença do presidente Fernando Henrique Cardoso e da primeira-dama, Ruty Cardoso. Tomi ainda voltou a se encontrar - e receber uma reverência especial - do imperador Akihito e da imperatriz Michiko em Curitiba, no mesmo mês.
Arquivo FolhaVida novaDona Tomi aos 20 anos de idade, com o marido Massagi, no dia do casamento: tempos difíceis no campo e distância da família foram superadas com muito trabalho. Ela é única remanescente do primeiro grupo de imigrantes que chegou ao Brasil, em 1908. Tinha um ano e meio de idade e aprendeu a andar no navio
Tantas homenagens emocionam a pioneira, que pouco se lembra dos últimos dias na terra do Sol Nascente e os primeiros no Brasil. Além do pai, Mitsuji Nishimura, e da mãe, Niyo, Tomi embarcou no cais de Kobe com outras duas irmãs mais velhas. No mar, os 781 passageiros do Kasato Maru venceram as 12 mil milhas em 52 dias. Chegaram ao porto de Santos em 18 de junho, com a perspectiva de uma vida melhor. ‘‘Eu tinha um ano e pouco de idade. Dizem que eu nem andava ainda. Aprendi a andar dentro do navio’’, diz dona Tomi.
A crise do Japão, no início do século, foi ponto decisivo para a vinda dos milhares de imigrantes que aportaram no Brasil. Não foi diferente com a família de Mitsuji: ele era comerciante no Japão, mas enfrentava dificuldades cada vez maiores. Por isso, resolveu arriscar a sorte no maior país da América do Sul. ‘‘Falavam que no Brasil se ganhava muito dinheiro’’, conta a pioneira. Mas o começo no País foi marcado por crise e decepção.
A família de dona Tomi foi parar numa fazenda de Mogiana, interior de São Paulo, para trabalhar na lavoura, e as dificuldades acumulavam dia a dia. O contrato de trabalho que tinham assinado no Japão se revelava, na verdade, como um sistema de exploração de mão-de-obra estrangeira. ‘‘Não dava nem para comer. Lá no Japão era diferente, tinha muita comida, bastante peixe.’’ Dona Tomi diz que era comum, na época, as mulheres se reunirem e chorarem juntas, com saudades da terra de origem.
‘‘Elas choravam porque na fazenda, muitas vezes, não tinha nem arroz. No começo meu pai teve que vender roupas para comprar comida. Só trabalhando, de cedo até escuro, não dava.’’ Para ela, os primeiros japoneses que vieram ao Brasil só contornaram a crise porque tinham muita persistência, coragem e uma disposição colossal para o trabalho. ‘‘Falar (o português) eles não sabiam; comida não tinha; então só restava trabalhar. O pessoal sofreu bastante.’’
Dois anos e duas fazendas depois, a família se encontrava em São Paulo: o pai trabalhando como carpinteiro e a mãe numa fábrica de colchas. ‘‘Na capital estava muito bom, a gente era criança ainda e tinha bastante amigo, a maioria estrangeiros. Vindos da Alemanha, da Espanha, Portugal. Foi uma boa época’’, comenta dona Tomi. Lá, ela também conheceu vários japoneses, também haviam chegado ao Brasil pelo Kasato Maru. Seis anos de metrópole, com trabalho assalariado, até que a família finalmente voltou para trabalhar no campo. Mitsuji aproveitou crédito do Governo Federal para comprar um sítio na região da Alto Sorocabana. ‘‘A gente trabalhava e pagava a terra.’’
A família de dona Tomi passou ainda por Lins, também no interior de São Paulo, até finalmente comprar um sítio em Promissão. Nesta época, ela já era uma moça e a família estava maior, com o nascimento de três irmãos. A pioneira não demorou muito a se casar, aos 20 anos, com o também japonês Massagi Nakagawa.
Mas a saudade do Japão, a dificuldade em morar num país distante e tão diferente como o Brasil, em que até a língua era barreira quase intransponível, venceram as resistências dos pais de Tomi. Vinte anos depois de embarcar no cais de Santos, ele voltava para o Japão com os dois filhos ainda solteiros e o dinheiro que conseguiu juntar; os outros ficaram no Brasil e sofreram com a separação. ‘‘Meu pai não me deixaria ir para o Japão nem que eu quisesse: já estava casada e fiquei em Promissão um tempão. Depois fui para Marília.’’
No novo sítio, no Oeste paulista, dona Tomi ficou doze anos. ‘‘Trabalhei bastante no sítio: carpia roça, plantava café, fazia de tudo. Naquele tempo a gente nem pensava se a vida era dura ou não. Trabalhava e todo mundo, do jeito que dava, era feliz.’’ Em 1951 a família da pioneira chegava ao Paraná, para morar e trabalhar num sítio em Cambé. Oito anos depois, mudou-se para outro sítio, desta vez - e finalmente - em Londrina.
De lá para cá, a vida de dona Tomi mudou bastante. Ela teve sete filhos, o marido morreu em 1980 e hoje ela mora com uma das filhas no jardim Campo Belo. Com 91 anos de idade, conserva a lucidez e a boa saúde, apesar de alguns problemas. A perna esquerda, por exemplo, ‘‘trincou’’, segundo ela, e nunca mais ficou boa. Entre outras coisas, o problema atrapalhou o gateball (esporte que praticava com amigos) e até para cozinhar ficou mais difícil. ‘‘Eu cozinhava sempre e agora não posso fazer mais nada. Hoje gosto mais de dormir e ver televisão.’’
Outro passatempo é relembrar e contar, junto com a família, os fatos que marcaram a vida. Como os primeiros anos de Brasil, a vida de dificuldade, as duas viagens que fez ao Japão - onde hoje mora o irmão caçula -, o encontro com o imperador, o presidente, e as homenagens como a de ontem na Câmara de Londrina. ‘‘Não esperava ganhar essa comenda. Isso me deixa realmente muito feliz.’’

mockup