BANGUE BANGUE - Tiroteios colocam ação policial em evidência
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quarta-feira, 14 de fevereiro de 2007
Fernando Rocha Faro<br> Reportagem Local 
Nas últimas semanas, vários casos de perseguições e troca de tiros entre policiais e bandidos deixaram a população de Londrina bastante assustada. Os episódios resultaram na prisão de criminosos perigosos, mas também num saldo trágico. O carpinteiro Valdeci Martins Godoi, 37 anos, morreu em 26 de janeiro depois de ter o carro atingido por um veículo em fuga no dia anterior. A filha dele perdeu o bebê em consequência do desastre. Outra vítima foi o mototaxista Alexandre Brunetti, 31, baleado durante uma ocorrência no Centro da cidade, no início do mês.
Por outro lado, as ações policiais retiraram bandidos de circulação, o que, segundo a Polícia Militar (PM), pode evitar novos crimes.
É assim que o tenente Ricardo Eguedis, responsável pelo setor de relações Públicas do 5º Batalhão da PM em Londrina, justifica as atitudes dos policiais, que por força de ofício têm de cumprir a tarefa de prender os bandidos, sem perder de vista a obrigação de zelar pela integridade física e psicológica das vítimas. Em entrevista para a FOLHA, ele analisou as últimas ocorrências e garantiu que os oficiais são preparados e que agem no intuito de ''impedir crimes e preservar vidas''.
FOLHA - Londrina registrou diversos casos de perseguição policial nos últimos dias. A sensação de insegurança na cidade está maior em função disso?
Eguedis O que ocorre é um bombardeio diário de fatos cada vez mais chocantes. Então, a gente vê uma brutalidade, uma perda de valores familiares em várias ocorrências. Mas não é uma exclusividade de Londrina. Essa sensação de insegurança acontece por todos os lados. A gente vê ocorrências com tiro, com acompanhamento, que não são provocadas pela polícia. Isso demonstra, inclusive, um poder de resposta muito rápido do nosso serviço de polícia em Londrina.
FOLHA - Essa postura policial não coloca a população em risco?
Eguedis - Nos locais onde nós tivemos acompanhamento e disparo de armas de fogo, você vai ver que existe preparo do policial para não expor ainda mais as pessoas a riscos. A gente treina o nosso homem de maneira intensiva. Temos cem policiais fazendo curso de direção defensiva e ofensiva. O policial não tem o direito de, em nome de prender um criminoso, atropelar e tirar a vida de ninguém. Isso é determinação do comando: se vai oferecer risco a terceiros, o policial, se for o caso, diminui a velocidade e até pára. Disparos de armas de fogo são evitados. Não é um bangue-bangue.
FOLHA - Um caso que chamou a atenção foi a perseguição policial que resultou na morte do carpinteiro Valdeci Martins Godoi. A ação dos policiais foi correta nesse caso?
Eguedis - Foi uma ocorrência complexa. Num primeiro momento, nós tivemos o acompanhamento de uma equipe da Rone. Esses criminosos se acidentaram com um primeiro carro, fugiram desse local, cometeram um outro crime, que foi roubar um carro, e então não havia mais o acompanhamento. Nesse segundo momento não existia policial fazendo perseguição. Os criminosos estavam em velocidade alta, o que acabou resultando num acidente gravíssimo, uma perda muito grande para a cidade. É um fato lastimável.
FOLHA - A viúva dele criticou a polícia por fazer muitas perguntas aos denunciantes de crimes. Qual é o posicionamento da corporação sobre esse tema?
Eguedis - Se o atendente puder colher melhores dados, para antecipar e levar subsídios aos policiais que vão para o atendimento da ocorrência, é melhor. Todos os nossos atendimentos passam por lavratura e confecção de documentos. Sempre vou mandar a viatura mais próxima e fazer o direcionamento mais rápido possível.
FOLHA - Em relação ao caso do mototaxista Alexandre Brunetti, vítima de bala perdida, os policiais agiram certo em continuar a perseguição depois dele ter sido ferido?
Eguedis - Os policiais ficaram sabendo que havia uma pessoa ferida somente depois.
FOLHA - No dia 9 de fevereiro, um policial de folga prendeu um criminoso na Área Central e houve disparos. Como o senhor avalia a ação dele?
Eguedis - O policial salvaguardou o patrimônio das pessoas e, talvez, a vida de outras porque esse criminoso estava correndo armado no Anel Central e poderia fazer um outro assalto. Ele relatou que o criminoso chegou a sacar da arma e puxar o gatilho duas vezes e ele só não foi baleado porque os tiros não saíram. Nós poderíamos estar falando do policial morto, que estava de folga e foi ajudar alguém.
FOLHA - O policial que está de folga deve andar armado e interferir se testemunhar alguma ocorrência?
Eguedis - É a função do policial, independentemente de estar em folga. É importante ressaltar o preparo dos policiais. Embora as perseguições pareçam filme de bangue bangue, se não fosse o preparo, poderia ter custado a vida do policial. Ele tem o direito de andar armado, até porque existem fatores externos que influenciam. No meu caso, todos os dias exposto na mídia, eu não ando mais sem ser reconhecido. E os outros policiais também sentem isso. Eles têm autorização de andar armados.
FOLHA - Os bandidos, principalmente os mais jovens, estão mais ousados?
Eguedis - Queria tratar esse assunto não como um reflexo policial, mas como um reflexo social. É um período que nós estamos vivendo em que estão faltando valores. Quais valores sociais esses adolescentes estão cultivando? Principalmente, porque agora o jovem envolvido no crime é uma pessoa de difícil recuperação, não impossível, mas muito difícil.
FOLHA - Um pequeno acidente de trânsito resultou num desentendimento entre um policial militar e um motorista. Como será a apuração desse caso?
Eguedis - Uma dupla de policiais avisou sobre um acidente de trânsito e foi prestar um auxílio aos envolvidos. A princípio, um dos condutores agrediu o outro e então eles perceberam que tratava-se do soldado Ronaldo. Houve uma troca de agressões, eles intervieram e virou um tumulto.
FOLHA - Como será a investigação?
Eguedis - O comandante já abriu um procedimento administrativo para investigar tanto a atuação dos policiais quanto a atitude do policial envolvido. Vamos verificar quem eram os atendentes e o envolvimento do policial que estava ali de folga.
FOLHA - Quanto tempo dura esse procedimento?
Eguedis - O prazo normal é em torno de 20 dias úteis. Lógico, que o prazo pode ser expandido. Nesse caso, não deve haver atraso porque não houve lesão corporal grave. Se pesar contra algum desses policiais alguma falha administrativa, mesmo fora de serviço, se for confirmado que aquilo evidenciou alguma falha, estarão sujeitos a algumas normas administrativas. A punição varia de advertência até exclusão. A gente não quer é que fique dúvidas em relação ao procedimento de investigação. Isso tem que ser o mais claro, o mais transparente possível. Para que não tenha um comprometimento da imagem (da polícia). Se ele for culpado, vai responder.


