Carlos AlmeidaDe mal a piorBarracos de favela de Bandeirantes: descargas de esgoto, doenças de pele e descaso da Vigilância. Projeto de rede de esgoto aguarda liberação de verba do governo federalO município de Bandeirantes ainda é líder em incidência de verminose. Desde 96, quando foram detectados 434 casos de esquistossomose e 2.595 casos de doenças causadas por verme, em 10 mil pessoas examinadas, nenhuma medida de precaução foi tomada.
Segundo o agente da Fundação Nacional da Saúde (FNS) de Jacarezinho, Alan Martins da Silva, o índice de esquistossomose do município já chega a quase 5%. Qualquer índice igual ou superior a 2% já é considerado perigoso. Os dados de 97 ainda não foram computados, mas a FNS acredita que o índice vai aumentar.
O bairro que mais tem sofrido com o descaso da vigilância municipal é o bairro São Carlos, que tem 123 famílias. Segundo o presidente da Associação dos Moradores, José Carlos Alves, 45 anos, são 123 descargas de esgoto no mesmo córrego, o Ribeirão da Antas, que fica ao lado das casas. Até a delegacia despeja esgoto no local.
‘‘Não há saúde que resista morando nesta imundície. Vai saber se não tem presos com Aids e o esgoto é largado aqui também’’, disse Alves. Ele informou que o bairro deverá ser aterrado até o final do ano, por estar localizado numa bacia. ‘‘As famílias têm urgência para sair daqui e a prefeitura garantiu que até o final do ano nós vamos ser transferidos para outras casas’’.
A moradora Tereza Alves da Silva conta que já perdeu quase tudo o que tinha por causa das enchentes do Ribeirão da Antas. Desde que se mudou para o bairro, há três anos, a filha dela, de 12 anos, sempre está com verminose. ‘‘Não tem como não ter contato com esse rio. Toda hora temos que passar pelas pinguelas, além do mais dentro de casa tem três minas de água’’, afirmou Silva, que pagou R$ 1,5 mil pela casa onde mora.
Outro caso grave é o da garota Alice Cristina da Silva, 7 anos, que há três anos pegou uma espécie de micose na canela por mergulhar o pé na água do rio. Segundo a mãe da garota, Fátima Aparecida Silva, a ferida não sara e cresce cada vez mais. ‘‘Ela era pequena quando pegou a micose e não sabemos mais o que fazer pra sarar’’, contou.
A falta de uma estação de tratamento de esgoto no município é a principal causa dos altos índices de doenças. Os bairros mais atingidos são Chácara São Carlos, Vila Frigorífico e Invernada, que despejam esgoto no Ribeirão da Antas.
Os agentes da Fundação Nacional da Saúde (FNS) explicam que o quadro de Bandeirantes só pode ser revertido com intervenção política e interesse do Governo para que as pesquisas continuem na cidade.
O chefe da vigilância sanitária de Bandeirantes, Osvaldo Meneghel, se recusou a falar à Folha sobre o assunto. Segundo informações da autarquia municipal do serviço de água e esgoto de Bandeirantes, o projeto da rede de esgoto já está pronto. Falta somente a liberação de verbas do Governo Federal.
O Schistossoma, verme que causa esquistossomose, se hospeda em caracóis, que se alojam na beira de rios. Cada caracol pode abrigar cerca de 2,5 mil cercárias (larva da esquistossomose).
O homem é o hospedeiro definitivo, uma vez que os ovos do verme ficam guardados nas feses. Se estas feses são lançadas nos rios, a cercária fica livre para penetrar na pele do homem, causando então a doença conhecida como barriga d’água.

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