Bancos de areia ameaçam hidrelétrica
PUBLICAÇÃO
domingo, 06 de dezembro de 1998
Lúcio Flávio Moura Especial para a Folha 
Orgulho da engenharia nacional, obra fundamental para sustentar o desenvolvimento do Centro-Sul e chance de trabalho para milhares de brasileiros, a Hidrelétrica de Itaipu não recebeu apenas aplausos na época de sua construção.
Embora ainda incipiente e lutando em tempos pouco democráticos, o movimento ambientalista era um dos setores que mais incomodava o objetivo dos militares - que governavam o País na década de 70 - em buscar a unanimidade sobre o projeto.
Quando, alguns anos depois, o País, comovido, assistiu via satélite a agonia lenta de Sete Quedas, em Guaíra, enfim descobriu-se o lado perverso da megahidrelétrica. Sandor Grehs, 55 anos, foi um dos que mais lamentou. Aquilo era mais bonito que as Cataratas, diz.
Em 1974, Grehs era a única voz divergente no governo federal sobre Itaipu. Coordenador de Recursos Naturais do Ministério do Interior (extinto), o geólogo, professor e ambientalista gaúcho previu o desastre causado pelo assoreamento do reservatório e as complicações que a sedimentação traria para a geração de energia.
As estimativas feitas sobre os impactos da sedimentação eram e ainda são irreais, argumenta o professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, se referindo a estudos feitos desde a década de 50.
Não se levou em conta a ocupação desenfreada da cafeicultura no Noroeste e sua consequente fragilização do solo. O pior é que eram feitos sobre parâmetros de clima temperado, ignorando fatores importantes do nosso clima, explica.
Para Grehs, Itaipu tem vida útil de 30 anos. Há indícios que o excesso de areia na água prejudicará as turbinas. O geólogo cita a Escala de Mohs, que mede a dureza de materiais, para avaliar o risco de comprometimento do maquinário. Pela escala, a areia está no nível 7 e o aço, no nível 6.
A consequência é que a areia é um poderoso abrasivo que acabará, com o passar do tempo, destruindo o aço, teoriza. O erro dos engenheiros, segundo o professor, foi subestimar os problemas de solo da área banhada pelo lago. O arenito caiuá favorece a sedimentação.
As idéias de Grehs - que defendia a substituição de Itaipu por duas usinas menores, mais baratas e mais próximas do mercado consumidor - lhe valeram muitos transtornos nos obscuros anos 70. Fui censurado e impedido de me apresentar 2º Congresso Internacional de Geologia de Engenharia, em São Paulo, relembra Grehs, que também participou, pela extinta Sudesul, de projetos de combate à erosão no Noroeste paranaense.
O geólogo ainda conserva a mesma impressão cética sobre os benefícios da hidrelétrica. O custo ambiental foi enorme e nossos netos poderão herdar em algumas décadas, um grande problema para resolver.
Grehs, primeiro professor de geologia ambiental com registro no MEC, faz, atualmente, estudos sobre o assoreamento no Pantanal e no Vale do Taquari, ambos no Mato Grosso do Sul. Além disso, compõe o Conselho Estadual de Meio Ambiente do Rio Grande do Sul, representando todas as universidades.


